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Lourenço Bustani, apontado o brasileiro mais inovador do mundo dos negócios, fala sobre soluções criativas de empresas lá fora – e o que as nacionais deveriam aprender

Lourenço Bustani, 32, vende ideias. Quem compra? Petrobras, Nike, GM, Bayer, Pepsico, Natura, HSBC e outras multinacionais. A Mandalah, empresa que criou, não inventa campanhas ou executa projetos para os clientes. Apenas bola a "visão", a estratégia da marca. "Quando a gente aponta as oportunidades, elas são necessariamente boas para a empresa e para a sociedade", afirma.

Além de contratos, as ideias de Bustani renderam um prêmio importante. Ele foi apontado o brasileiro mais inovador do mundo dos negócios, pela revista americana Fast Company, referência no assunto. No começo do mês, viajou a Nova York, onde a Mandalah tem escritório, para algumas reuniões. Depois, foi ao Canadá, receber a premiação da revista, numa cerimônia com nomes como Francis Ford Coppola e Arianna Huffington. Havia acabado de voltar ao Brasil quando recebeu o iG .

Busca por inovações: ação para Nike resultou em campeonato de futebol nas favelas cariocas
Greg Salibian/iG
Busca por inovações: ação para Nike resultou em campeonato de futebol nas favelas cariocas

iG: O que você viu nessas viagens, em termos de inovação?
Bustani: Eu me impressionei com o nível de consolidação do fenômeno dos apps [ aplicativos ]. É uma coisa sem volta. Daqui uns anos, vamos olhar pra trás e ver que foi a era dos apps.

iG: Algum app em particular?
Bustani: Nada específico, vi muita coisa. O que me impressionou é o mercado. Tem agências com equipes de 30 desenvolvedores de apps.

iG: As grandes empresas clientes de vocês já estão nessa ‘era’?
Bustani: Fora do Brasil, sim. Nos nossos outros escritórios, sim. Aqui, ainda não. Tem a ver com nossa limitação de banda larga e smartphones. Mas a projeção de crescimento de smartphones no Brasil é assustadora. Em pouco tempo, vai deixar de ser nicho. Está claro que vai haver uma revolução. E vocês viram o que aconteceu com o Facebook, né? A desvalorização das ações , por não terem divulgado informações confiáveis de que está tudo migrando para o mobile [ internet móvel ]. E eles não têm estratégia de mobile. Não têm geração de receita através de mobile.

iG: Então o impacto no Facebook pode ser maior do que conseguimos ver?
Bustani: Tendo a achar que se alguém vai se mexer para resolver isso é o Facebook. Talvez percam dinheiro, percam um pouco de tempo, mas vão se adaptar.

iG: As empresas estão preparadas para essa revolução dos smartphones?
Bustani: As grandes já estão focadas nisso. As Nikes, Best Buys, Dells... Ontem tomei café com o CEO de um grupo de mídia chamado Radical Media, dos EUA [ Jon Kamen ]. Os caras ganharam Oscar, Grammy, tudo. Ele, usando o iPad, me contou a história da agência através dos apps que criaram. E falou um termo que eu nunca tinha ouvido: appmentary [ ou appmentário ], que é um documentário via app. É fantástico. Fiquei impressionado, o cara tinha seus 50 anos e só falou de apps.

iG: A maior parte das empresas, inclusive clientes de vocês, faz ações sociais pontuais, mas são parte de grandes problemas. É uma contradição?
Bustani: Claro, é uma grande contradição. Não é um modelo sustentável. Você não pode ilhar a discussão em torno da sustentabilidade num departamento periférico. E geralmente é uma área que carece de recursos, que não tem importância estratégica...

iG: A GM, cliente de vocês, é parte do problema do trânsito. A Petrobras, é parte da poluição. Se os problemas forem mesmo resolvidos, elas ficam sem ter um negócio?
Bustani: Tal como a gente conhece essas empresas hoje. Esse é o ponto. Quando a gente fala que uma empresa precisa se mexer, é justamente isso. Como gerar outras receitas, outros valores dentro de um negócio, sem ser em detrimento de alguém.

Escritório da Mandalah, na Vila Madalena, São Paulo:
Greg Salibian/iG
Escritório da Mandalah, na Vila Madalena, São Paulo: "empresas brasileiras precisam amadurecer"

iG: No caso dessas corporações, seriam mudanças monumentais. É possível?
Bustani: Sem dúvida. Alguém pode discordar da necessidade disso? A gente está em desequilíbrio, o amanhã não está assegurado com a mesma qualidade de hoje.

iG: A crise econômica adia a preocupação das empresas com a sustentabilidade?
Bustani: Acelera. Não concordo que um aumento do foco na sustentabilidade implique em diminuição de lucro no curto prazo. E o que aconteceu foi mais que uma crise econômica, foi uma crise existencial. Pela primeira vez as empresas pararam e falaram: ‘por onde vamos, qual o caminho?’ Isso deu margem a discussões que nunca tinham acontecido num ambiente corporativo.

iG: Mas, na hora de por a mão no bolso para reduzir impactos, elas não vão segurar?
Bustani: Não dá para segurar mais. A necessidade de se enquadrar é tão urgente que as empresas não têm tempo a perder – e sabem disso. Algumas não sabem como começar, esse é o problema. Você vê muitas começando 'pela ponta', pela comunicação. Outras discretamente investem bilhões para reestruturar o negócio e um dia falar sobre isso. A [ marca de roupas e equipamentos ] Patagonia é um exemplo inacreditável. Você vai num ponto de venda da Patagonia em Nova York e na vitrine está escrito: ‘compre menos’.

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iG: Mas é um negócio que nasceu de um montanhista, com uma cabeça diferente...
Bustani: Tudo bem. Todas essas mudanças nascem a partir de uma liderança pessoal comprometida. Sempre vai começar com alguém. A Patagonia é uma multinacional gigante, fatura bilhões. E não é só a frase ‘compre menos’, os caras têm programas sobre roupa reutilizável, têm um comportamento coerente. Não é uma ação promocional, o negócio está preparado para o ‘compre menos’.

Tem muita coisa rolando. As grandes empresas estão todas envolvidas, em menor ou maior grau. Pode ser um laboratório, um projeto piloto. Beleza, mas já é algo. E têm algumas como a Wal-Mart que simplesmente transformam sustentabilidade na principal diretriz da empresa, fazem transformações de negócios profundas.

iG: Na prática, o que faz a Mandalah? Quais projetos importantes fizeram?
Bustani: Um trabalho grande foi o que fizemos para a Nike. A gente fez um trabalho para identificar como a marca conseguiria se tornar relevante e ganhar legitimidade com os cariocas até a Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2016. A Nike não tinha nenhuma presença no Rio, não tinha atuação na cidade. Queriam fazer parte da cultura carioca, para que durante os grandes eventos pudesse ter uma presença relevante. A gente interagiu com personagens de todos os mundos e submundos da cidade, lideres comunitários, artistas, DJs, atletas, produtores culturais, ONGs, para entender o momento que a cidade está vivendo. Com base nisso, desenvolveu uma visão para a marca. Uma visão integradora, que junta as tribos. A gente propôs uma visão na qual a Nike serve de propulsora de transformação social através do esporte. É uma estratégia que vem das bases.

iG: O que eles estão fazendo?
Bustani: O que eles estão fazendo parte dessa visão [ criada pela Mandalah ], mas é criado por eles.

iG: Vocês só fizeram a ‘visão’?
Bustani: Só a visão. Não uso palavras concretas porque é sigiloso – o nome da visão, o conceito da visão. Mas a pretensão da visão é a transformação social através do esporte. O que eles estão fazendo? Patrocinando campeonatos de futebol entre favelas, reformando pistas de skate, promovendo corridas. Criaram a Favela Surf Clube, no Morro do Cantagalo, uma escola de surfe gerenciada pela comunidade. Mas as ações não fomos nós que criamos, só fizemos a visão estratégica para a marca.

iG: O que qualquer empresa, de qualquer tamanho, poderia fazer para ‘se mexer’?
Bustani: Ontem fui convidado pelo Itaú para conversar com 120 colaboradores deles. E era o 42º encontro que faziam no ano. Já trouxeram 42 pessoas para bater papo. Isso é muito bom, você traz estímulo, referencia, conhecimento. É muito interessante criar momentos que estimulam o refresco intelectual.

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iG: Você nasceu e morou muito tempo fora. Que crítica faz às empresas brasileiras?
Bustani: Ainda lamento a falta de seriedade. Acho que informalidade e falta de profissionalismo prejudica a todos. É bom ter certo grau de flexibilidade, jogo de cintura... O jeitinho brasileiro, na dose certa, é ótimo. Se passar dessa dose, é prejudicial. Aqui é tudo muito incerto, muito volátil, os acordos não são honrados. Basta mudar um diretor que o projeto pode dançar. Já recebi emails dizendo: ‘parabéns, vocês ganharam o projeto’. Depois de dez dias, chega outro: ‘pois é, a gente foi buscar aprovação com o diretor e ele mudou de ideia’. E estou falando de multinacionais. Se eu somar todas as ocasiões, foram R$ 3 milhões [ em projetos aprovados e desaprovados ]. Falta processo, seriedade, cultura corporativa.

iG: Muitos estrangeiros estão vindo trabalhar no Brasil. Esse choque cultural corporativo acontece muito?
Bustani: Toda semana recebo email de algum amigo ou conhecido: ou é um investidor que ganhou dinheiro em Wall Street e quer investir no Brasil, ou um cara que não aguenta mais trabalhar lá e está fazendo cursinho de português... O choque cultural acontece muito. Agora, com os grandes eventos esportivos, a gente tem que olhar para nós mesmos e pensar qual imagem vamos querer transmitir. O Brasil precisa amadurecer um pouco, as empresas precisam amadurecer.

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