SÃO PAULO - O crescimento da virtualização e dos sistemas de computação sobre internet (cloud computing) no Brasil tem sido tal que gigantes do setor começam a se mexer para aproveitar melhor as oportunidades no país - que ainda pode servir de plataforma para a América Latina. A norte-americana Wyse Technologies, por exemplo, é uma das companhias que está preparando terreno para uma investida de maior peso, com a construção de uma fábrica no país.

A empresa é líder mundial no setor de thin clients, uma espécie de PC virtual, que funciona como terminal de acesso a servidores de um data center que, eles sim, armazenam dados e rodam os programas que o usuário vai utilizar. Na verdade, foi a Wyse a primeira a patentear o sistema de thin clients, explica o presidente e executivo-chefe da empresa, Tarkan Maner. Segundo dados da consultoria IDC, hoje a empresa domina 42% do mercado mundial de thin clients.

A companhia é praticamente uma ilustre desconhecida do consumidor final e fornece sistemas - tanto de hardware como de software - para outras gigantes de tecnologia, como IBM, Dell, Microsoft, Citrix e Hewlett-Packard. Com esta última, a Wyse tem cerca de 70% do mercado mundial de thin clients, também segundo o IDC.

No momento, a empresa está em processo de preparação para sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) e, portanto, não divulga dados financeiros. Criada em 1981 como empresa familiar, a companhia nunca publicou seus resultados de faturamento. Ainda assim, segundo Maner, desde 2005 a empresa tem dobrado de tamanho a cada ano.

Tudo, explica o executivo, graças à demanda crescente por sistemas baseados em rede, que ofereçam significativa redução de custo de operação e instalação e que se encaixem no perfil de computação verde.

Minha vinda agora para o Brasil é exatamente para aproveitar essa tendência, que é muito forte no país. Tudo isso criou um grande interesse em relação a thin clients e acreditamos que esse é o momento certo para aproveitar o aumento na demanda local e investir mais ativamente no país, afirma Maner. No Brasil estamos crescendo num ritmo muito mais elevado que a média do mercado, acrescenta.

A Wyse passou a vender seus pacotes de thin clients, que envolve também várias opções de softwares para virtualização, há três anos. De lá para cá, o crescimento tem sido exponencial, e a Wyse, segundo o diretor de Vendas para a América Latina, Steve Sandler, já tem mais de 1000 clientes no país e uma base instalada de cerca de 50 mil thin clients. Na carteira da companhia, clientes dos setores de bancos, finanças e seguradoras, governos, varejo e usinas de cana-de-açúcar.

Como reflexo desse desempenho, a companhia já está na fase final de uma análise que deverá, segundo Maner, resultar na construção de uma fábrica no país. A decisão, explica, será tomada dentro de 6 a 12 meses, mas certamente a companhia irá instalar uma unidade de produção no Brasil.

Assim como no caso do faturamento, Maner não informa qual será o valor investido nessa fábrica. Ele, diz, entretanto, que enquanto hoje 6% de suas vendas vêm da América Latina, com a nova unidade, pretende elevar essa participação da região no faturamento total para entre 15% e 20%.

O investimento que faremos aqui nos dará um ganho fiscal importante, que nos permitirá uma melhor posição para competir no mercado. Hoje, com nossos produtos sendo importados, o sistema fiscal nos prejudica muito, alega Maner. Com a fábrica aqui, também iremos utilizar o Brasil como plataforma para fornecer para toda a região. Afinal, estaremos na 'capital' da América Latina, acrescenta.

Hoje utilizando os serviços da chinesa Inventec para a produção de seus equipamentos, a Wyse planeja que a planta brasileira seja construída em parceria com essa fornecedora. Nós que iniciamos esse processo de avaliar a produção local, mas conversamos com eles para estudar as oportunidades que teremos junto com eles no país, atuando em parceria, explica Maner.

A fábrica brasileira, embora ainda em estudo, deverá ser mais do que apenas uma unidade de montagem de equipamentos, explica o executivo. Segundo ele, embora certamente a montagem deverá ser parte importante das atividades, haverá algo mais sendo feito no local. Na área de software, uma das mais importantes hoje para a companhia, já que está por trás de grandes empresas de virtualização, o Brasil poderá representar um papel diferenciado, embora não relacionado ao desenvolvimento propriamente dito.

Identificamos que o Brasil tem uma vocação grande para esses serviços de tradução e customização, dada a ampla variedade de culturas, línguas e povos que se encontram por aqui, explica Maner, acrescentando ainda que isso não é uma novidade, pelo menos para empresas de tecnologia dos EUA, que já há algum tempo investem nessas atividades no país por esses mesmos motivos e pelo custo mais baixo da mão-de-obra local.

Segundo Maner, dependendo do grau de utilização e tecnologia dos clientes, os pacotes de thin clients e softwares de virtualização da Wyse podem levar a entre 30% e 80% de redução nos custos dos clientes com computação. Na América Latina, estima Sandler, essa proporção é de 30% a 60%, já que na região ainda se utiliza muitos computadores antigos e com valor praticamente marginal.

Mas, mesmo que uma empresa tenha custo zero para comprar um PC tradicional, considerando custos de manutenção, sistemas de antivírus, de segurança, programas de gerenciamento corporativo, licenças, treinamento, energia e refrigeração - e ainda muitas outras coisas -, o thin client acaba saindo até mais barato no fim, afirma Maner.

No final do ano passado, a HP, uma das principais concorrentes da Wyse - e que também é parceira na área de softwares para servidores -, lançou no Brasil sua própria linha de thin clients. Segundo Maner, as fabricantes de PCs odeiam a Wyse, pois ela tem uma oferta cuja relação preço e valor é muito melhor do que aquela de um PC tradicional.

Essas empresas não falam muito em thin clients por motivos óbvios. Quando um de seus clientes as procura atrás disso, elas compram de nós e revendem, mas não fazem muito barulho com isso, afirma o executivo. Mesmo assim, estão percebendo a tendência e apostando nesse mercado. Isso apenas valida nossos esforços, conclui.

(José Sergio Osse | Valor Online)

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