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Vigilantes do endividamento são flagrados cochilando

A febre da casa própria estava com força total em 2005 quando os analistas da Moodys Investor Service, a mais antiga e prestigiada agência de classificação de risco dos Estados Unidos, foram pressionados a voltar para a mesa de planejamento. A Moodys, responsável pela avaliação dos títulos da dívida emitidos por empresas e bancos, tinha acabado de classificar um conjunto de valores mobiliários assegurados pela Countrywide Financial, a maior agência americana de empréstimos hipotecários.

Agência Estado |

Mas a Countrywide queixou-se, afirmando que a classificação era rigorosa demais. No dia seguinte, a Moodys alterou a nota, apesar de não ter sido divulgada nenhuma nova informação significativa, de acordo com duas pessoas informadas sobre a mudança que pediram anonimato.

A Moodys tinha atribuído classificações de alta qualidade a diversos valores mobiliários que continham hipotecas da Countrywide. Esses valores, emitidos durante o surto de empréstimos dos últimos anos, posteriormente azedaram - deixando para os investidores vultosas perdas, e a ameaça das execuções hipotecárias para os proprietários de imóveis.

Essa não foi a única vez que a Moodys relaxou na sua avaliação dos valores mobiliários da Countrywide. A agência elevou sua avaliação diversas vezes após queixas da empresa, afirmaram pessoas inteiradas no assunto. Desde que os problemas nas hipotecas subprime explodiram no ano passado numa crise financeira de proporções cada vez mais assustadoras, as três maiores agências de classificação de risco - Moodys, Standard & Poors e Fitch Ratings - enfrentaram uma saraivada de críticas relativas à sua avaliação otimista dos valores mobiliários hipotecários, e indagações quanto à hipótese de esse otimismo ter gerado bilhões de dólares em perdas para os investidores.

Essas instituições deveriam ajudar os investidores a avaliar o risco envolvido naquilo que estão comprando. Mas alguns ex-funcionários e muitos investidores dizem que as agências - que recebiam muito mais pela avaliação de complexos valores mobiliários de hipotecas do que pela avaliação de dívidas mais tradicionais - teriam subestimado o risco das dívidas hipotecárias ou simplesmente ignorado o seu perigo para que pudessem amealhar imensos lucros durante o boom da casa própria.

Um porta-voz da Moodys, Anthony Mirenda, disse que a empresa não altera suas avaliações sem ter motivos substanciais para fazê-lo. "Por questão de funcionamento da empresa, a Moodys é obrigada a reconvocar um comitê de avaliação no caso de serem divulgadas novas informações capazes de ter um impacto material sobre o risco associado a um determinado valor mobiliário", disse ele, "e a política da empresa é proibir qualquer alteração nas avaliações, exceto em função de novas considerações quanto à sua credibilidade".

Ele acrescentou que a "Moodys desconhece situações em que a reconvocação de um comitê de avaliação tenha resultado em alterações indevidas na avaliação de valores mobiliários da Countrywide".

O Bank of America, que adquiriu a Countrywide este ano, disse não ser capaz de verificar os detalhes da interação da administração anterior junto à Moodys. Membros do Congresso têm fritado as agências, pedindo aos seus executivos que respondam a acusações de incompetência e que esclareçam se foram atribuídas avaliações excessivamente otimistas para garantir a satisfação dos seus clientes e a expansão das suas atividades.

Funcionários do governo federal e estadual também estão realizando investigações. A Moodys revelou recentemente num relatório ter recebido intimações, de procuradores gerais estaduais e de outras autoridades, relativas ao seu papel na crise de crédito. A Moodys afirmou estar cooperando com as investigações. "As avaliações de risco da Moodys desempenham um papel importante, porém limitado, nos mercados financeiros - oferecemos opiniões equilibradas, independentes e visionárias quanto ao risco relativo do crédito, com base em análise rigorosa e metodologia divulgada", disse Mirenda. A empresa nega ter relaxado no rigor das avaliações para gerar maior renda.

Não se pode negar que as agências de classificação de risco tenham ignorado problemas imensos nos valores mobiliários atrelados a hipotecas. A Moodys não quis revelar quantas classes de valores mobiliários foram rebaixadas. Mas o número está na casa dos milhares, e o seu valor original era de centenas de bilhões de dólares.

Quando a Moodys começou a rebaixar a classificação de uma onda de dívidas em julho de 2007, muitos investidores mostraram-se incrédulos. "Se não são capazes de prever a perda antes de ela ocorrer, de que servem estas classificações?" indagou um executivo da Fortis Investments, uma empresa de gerenciamento monetário, numa mensagem de e-mail enviada à Moodys em julho de 2007. "Vocês deram credibilidade a tudo isso, induzindo as pessoas a assumir riscos perigosos."

O que os reguladores, legisladores e investidores estão tentando determinar é se era de fato impossível detectar estes riscos ou se eles foram ignorados.

Antigos executivos da agência dizem que o infortúnio da Moodys começou há cerca de uma década, quando a gerência principal começou a pressionar a empresa para se tornar mais orientada para os lucros e afável aos emissores de títulos de dívidas. A empresa, cuja objetividade antes vinha do fato de o lucro ser proveniente dos investidores, acabou trabalhando intimamente com as empresas que ela mesma avaliava, sendo remunerada por elas.

Em 2000, quando a Moodys abriu seu capital para o público pela primeira vez, executivos dedicados ao aumento dos lucros trimestrais receberam novo incentivo para redirecionar o foco da empresa, abandonando títulos de dívida relativamente simples e de baixa margem de lucro em favor de avaliações altamente lucrativas de valores mobiliários muito mais complexos associados a dívidas.

Enquanto se aproveitava da onda de hipotecas, a Moodys chegou a desfrutar de margem de lucro superior à de poderosas empresas relacionadas no índice Fortune 500, incluindo Exxon e Microsoft. "A Moodys era como um cão de guarda que considerava o mercado financeiro o seu território e latia e rosnava sempre que alguém desconhecido se aproximava", disse Thomas J. McGuire, ex-diretor de desenvolvimento corporativo que deixou a Moodys em 1996. "Mas durante a década de 1990, aquele cão de guarda foi amordaçado e castrado. Pediram-lhe que se transformasse num cãozinho de estimação."

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