BRASÍLIA - Os financiamentos feitos pelo Banco Central às exportações fizeram as reservas internacionais chegarem a US$ 192,861 bilhões pelo conceito de caixa, o menor valor desde fevereiro de 2008. A autoridade monetária espera, porém, não só recuperar os valores emprestados, como lucrar com a estratégia de fornecer liquidez para o mercado de câmbio.

Quando começou a vender e a emprestar dólares ao mercado, em setembro, o BC passou a divulgar as reservas internacionais em dois conceitos. Um deles é o conceito de caixa, que inclui os dólares prontamente disponíveis para intervir no câmbio. O outro conceito é o de liquidez internacional, que inclui aplicações que podem ser recuperadas em prazos mais longos. Até setembro, os volumes de reservas eram basicamente os mesmos nos dois conceitos. A partir de então, começaram a se distanciar. Em 9 de janeiro, as reservas pelo conceito de caixa eram US$ 12,642 bilhões menores do que as reservas pelo conceito de liquidez, que estavam em US$ 205,503 bilhões.

A diferença entre os valores se explica basicamente pelos dólares emprestados pelo BC para financiar exportações, que são considerados parte das reservas apenas pelo conceito de liquidez. Esses empréstimos ficam fora do conceito de caixa porque o BC só terá os recursos disponíveis quando vencerem as operações, que têm prazo de até um ano.

O BC faz dois tipos de intervenção que não representam a venda definitiva de reservas. Numa, vende dólares com o compromisso de recompra. Noutra, empresta dólares aos bancos, que usam os recursos para financiar exportações. Nos próximos meses, deverá aumentar a distância entre as reservas pelo conceito de caixa e de liquidez. O BC vai divulgar em breve as regras dos empréstimos em moeda estrangeira para ajudar as empresas a quitarem as suas dívidas externas. Os cálculos do BC são de que serão emprestados US$ 20 bilhões nessa linha.

O principal objetivo do BC com essas operações é injetar dólares no mercado em período de severo aperto de liquidez. Um especialista lembra, porém, que essa política tem um efeito colateral positivo na administração das reservas. O BC resgata aplicações de longo prazo, nas quais está sujeito a prejuízos quando os juros subirem, e faz aplicações de prazo mais curto.

Nos últimos 18 meses, as reservas registraram ganhos expressivos com a valorização das aplicações em títulos do Tesouro americano. Os juros dos papéis com prazo de dez anos, por exemplo, caíram de 5,02% ao ano no fim de julho de 2007 para 2,36% ontem. A queda dos juros significa, para a autoridade monetária, a alta dos preços dos papéis, com efeitos positivos sobre o volume de reservas.

É por isso que as reservas pelo conceito de liquidez se mantiveram praticamente inalteradas nos últimos meses, a despeito das pesadas vendas feitas pelo BC no mercado à vista, que já somam US$ 11,6 bilhões, entre setembro e dezembro. Em tese, essas operações deveriam ter reduzido as reservas pelo conceito de liquidez. Mas, pelos dados mais recentes, de anteontem, elas estavam em US$ 204,679 bilhões, não muito diferentes dos US$ 205,116 bilhões de agosto.

Os títulos americanos se valorizaram porque, em meio à crise, os investidores buscaram ativos mais seguros. Assim que a crise passar, afirma um especialista, a tendência é que os juros voltem a subir, derrubando o preço dos papéis. Nessa hipótese, as reservas vão estar mais bem protegidas se aplicadas em financiamento do comércio exterior, com prazos mais curtos. Essa estratégia, porém, só faz sentido se usada com moderação. Se volumes crescentes das reservas forem dirigidos ao financiamento de exportadores e de empresas, os investidores passarão a questionar a solidez externa do país.

(Alex Ribeiro | Valor Econômico )

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