A compra da GVT pela francesa Vivendi, anunciada na sexta-feira, deve acelerar a expansão da operadora brasileira para novos mercados, aumentando a competição com as concessionárias locais, Telefônica e Oi. Enquanto a concorrência no celular é um sucesso, com quatro operadoras nacionais (Vivo, Claro, TIM e Oi) que têm participação de mercado muito próxima, ainda há muita concentração na telefonia fixa.

No fim de junho, a Telefônica e a Oi tinham 82% dos 41,6 milhões de acessos fixos no País, segundo a consultoria Teleco.

Existem dezenas de operadoras de nicho que oferecem telefonia fixa, mas somente duas enfrentam as concessionárias em maior escala: a Embratel (com a Net) e a GVT. A estratégia traçada pelos reguladores na década passada para criar competição no telefone fixo não teve os resultados esperados. Das chamadas empresas-espelho, que seriam as competidoras das concessionárias, somente a GVT, que atua principalmente nas Regiões Sul e Centro-Oeste, prosperou. A Vésper, outra empresa-espelho, quebrou e acabou absorvida pela Embratel.

Várias regras pró-competição não saíram do papel ou não foram implementadas como esperado. A chamada desagregação de redes (unbundling), que obriga as concessionárias a alugarem suas redes para as concorrentes, não teve uma definição de preço que viabiliza sua aplicação comercial. A portabilidade numérica, que permite trocar de operadora e manter o número, chegou em 2008, mas era esperada desde a década passada.

A Vivendi disputou a compra da GVT com a Telefônica. O grupo espanhol tinha uma oferta pública pelas ações da GVT marcada para quinta-feira, com uma proposta de R$ 50,50 por ação. A Vivendi acabou levando o controle da GVT após uma série de negociações privadas, pagando R$ 56 por papel da operadora, o que representou um ágio de 54,4% sobre o fechamento de 8 de setembro, antes de a GVT receber a primeira proposta de compra.

O interesse da Telefônica pela GVT foi, em grande parte, defensivo. No ano passado, um executivo do grupo espanhol chegou a classificar a empresa como "muito boa, mas cara".

Após a manifestação de interesse da Vivendi, a Telefônica estava disposta a pagar um prêmio de 39,3%, representado na sua última proposta, de R$ 50,50 por ação.

A GVT, com os recursos da Vivendi, pode ser uma ameaça à posição da Telefônica em São Paulo. Ela não atua no mercado residencial do Estado, mas já havia anunciado seus planos para estrear nele em 2010, antes mesmo de ser alvo de propostas de aquisição. A Oi também identificou uma ameaça na Vivendi, já que a companhia prometeu também ingressar no Rio de Janeiro no ano que vem.

O presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco, declarou em outubro sua preferência pela Telefônica, durante o evento Futurecom, em São Paulo. "Tenho preocupação com gente nova chegando por aqui, porque já presenciamos muitos casos de gente entrando, detonando preço para ganhar mercado e, depois, indo embora. É melhor alguém que já opera aqui dentro e está acostumando com o ambiente."

Apesar de a Oi ter licença de telefonia fixa para a área da Telefônica, e a Telefônica ter para a área da Oi, as companhias só competem no mercado de grandes empresas.

No fim do mês passado, o presidente do Conselho da espanhola Telefónica, Cesar Alierta, reclamou do comportamento da Vivendi, durante evento em Sevilha: "Estamos desapontados com a Vivendi. Para nós, a atitude da Vivendi foi uma surpresa, e não ficamos felizes com ela". Em 2008, a Telefónica e a Vivendi tentaram comprar, em conjunto, a empresa de TV via satélite Digital+, da espanhola Prisa, mas a proposta não foi aceita.

Apesar de a GVT ser uma empresa competitiva e bem administrada, ela ainda é pequena quando comparada com seus competidores. Portanto, seu maior valor está no potencial de crescimento. No terceiro trimestre, a empresa teve um lucro de R$ 57,2 milhões, sobre receita líquida de R$ 442 milhões, segundo a Teleco.

A Oi lucrou R$ 64 milhões, sobre receita de R$ 7,5 bilhões, e a Telefônica R$ 600 milhões, sobre receita de R$ 3,9 bilhões. Com 1,353 milhão de linhas em serviço no fim de junho, a GVT tinha 3,2% do mercado de telefonia fixa. Sua participação na banda larga era de 5,4% no terceiro trimestre, com 604 mil clientes.

A possibilidade de venda da GVT para a Telefônica recebeu oposição de associações de empresas e de entidades de defesa do consumidor. Em carta à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a TelComp, associação que reúne as concorrentes da Oi e da Telefônica, defendeu que a GVT não fosse comprada por uma concessionária local, para que fosse garantida a competição. "Os interesses públicos precisam ser preservados ante à operação privada de compra da GVT." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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