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Veja a reação no Brasil após o fracasso das negociações da OMC

SÃO PAULO (Reuters) - As negociações em Genebra para tentar salvar a Rodada de Doha e garantir um acordo global de comércio fracassaram, disseram diplomatas nesta terça-feira. Veja a seguir comentários de representantes da indústria e do setor agropecuário brasileiro.

Reuters |

JOSÉ AUGUSTO DE CASTRO, VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE COMÉRCIO EXTERIOR DO BRASIL:

'O fracasso de Doha significa que o protecionismo venceu a abertura comercial, e o Brasil perde com isso. Ao contrário de outras economias, como o México e o Chile, nós não temos acordos comerciais bilaterais com outros países então, sem um acordo multilateral, ficamos isolados, e nossas exportações não têm o benefício da tarifa reduzida. O setor agrícola, é claro, é o maior perdedor pois mundialmente é ele que tem a maior carga de subsídio e protecionismo. Com os subsídios, a expansão da nossa produção fica limitada.

Os acordos bilaterais têm que ser a saída para o Brasil agora. O problema é que um entendimento tem que ser aceito por todos os parceiros do Mercosul e o Brasil é uma economia muito maior do que os demais sócios, os interesses são diferentes.'

ELISABETE SERÓDIO, CONSULTORA EM COMÉRCIO E NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS

'Eu não acredito que não se chegue a um acordo (na rodada de Doha), seja lá qual for, quando for. Porque nas discussões bilaterais (fora da OMC) não há avanço em temas como subsídios à exportação, acesso a mercado e apoio doméstico que distorce o comércio. Por isso, esses acordos são muito mais políticos, eles geram pouco fluxo de comércio.

A Índia estava pesando muito o lado dela e entendendo que teriam de abrir mais o mercado do que ganhar mercado. Eles teriam de reduzir práticas internas que são praticamente vitais para seus agricultores, que são muitos. Hoje ficou pior para a Índia abrir em agricultura do que para a Europa. A Índia não tem o que oferecer.'

HAROLDO CUNHA, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES DE ALGODãO.

'Acho que o Brasil adotou uma postura um pouco menos agressiva do que a Índia e a China, no sentido de que uma negociação razoável era melhor do que nada. Acho que isso mostra que o Brasil tinha um interesse em negociar.

Analisando como algodão, a gente tem essa frustração no sentido de que imaginávamos que conseguiríamos algo efetivo nessa rodada. É um sentimento muito negativo porque pode levar a uma diminuição de área no Brasil (...) porque o algodão americano continua com muitos incentivos'

SORAYA ROSAR, CONSULTORA, CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI):

'Não é uma boa notícia, de jeito nenhum... É triste ter perdido todos esses anos de trabalho.

Para um pais emergente, nao ter uma OMC forte, realmente é preocupante...

O agronegócio brasileiro realmente é quem perde mais.'

SÉRGIO MENDES, DIRETOR-GERAL, ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS EXPORTADORES DE CEREAIS (ANEC):

'O futuro do Brasil na parte de grãos é irrefutável. Não é um ou outro percalço de negociaÇão que tenhamos no caminho que vai impedir (esse futuro). O que pode acontecer é que com o fracasso de uma rodada dessa, que se esperava pelo menos diminuir o subsídio, pode atrasar um pouco esse crescimento abrupto que o Brasil está tendo. Mas de maneira nenhuma isso vai descontinuar o crescimento.

O setor espera que as negociações possam prosseguir no futuro, porque diminuindo o subsídio o Brasil ganharia mercados extras... Mas o Brasil vai continuar o seu destino.

O que temos de nos preocupar é ampliar a produção para atender essa demanda adicional, coisa que hoje não vejo o Brasil preparado em termos de infra-estrutura de transporte e mesmo em expansão de plantio.'

CHRISTIAN LOHBAUER, DIRETOR-EXECUTIVO, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PRODUTORES E EXPORTADORES DE FRANGO (ABEF):

'Da perspectiva do setor exportador de frango, é uma pena.

A gente vinha trabalhando num ambiente de menos ambição para que pudesse garantir um pouco mais de acesso ao produto brasileiro na União Européia e sair desse universo de salvaguardas e cotas, trabalhamos também favorecendo a redução dos subsídios americanos e junto com o setor agrícola e industrial contra salvaguardas para países em desenvolvimento.

O cenário do mercado mundial no que se refere principalmente ao mercado europeu continua difícil, pois vão manter como é hoje, com tarifas altíssimas, específicas, aplicando salvaguardas agrícolas reminiscentes da Rodada Uruguai (...) e certamente no ambiente de Doha conseguiríamos algumas toneladas sem estas tarifas. Num segundo momento permanecem todas as barreiras sanitárias.

A notícia não é boa para ninguém, vai provocar um movimento de acordos bilaterais (...) Vamos passar por um ambiente de incerteza no ambiente multilateral.'

MÁRIO MARCONINI, DIRETOR DE NEGOCIAÇÕES INTERNACIONAIS, FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (FIESP):

'Parece que há o interesse de alguns países de que a Rodada fracasse, notadamente Índia e Argentina. O Brasil nunca tinha negociado em Doha em bloco com o Mercosul, mas o fez desta vez para dar mais flexibilidade à Argentina, que continuou dizendo não a tudo. E a Índia quer salvaguardas mesmo já tendo proteção tarifária altíssima.

Se o Brasil não tivesse aceitado o pacote na semana passada, o fracasso teria acontecido muito antes. O país tomou uma posição de conciliação e fez o necessário para manter negociações vivas. Mas os outros deixaram o Brasil de lado. A China nunca falou nada e, nos últimos momentos, resolveu ser contra tudo'.

PEDRO CAMARGO NETO, PRESIDENTE, ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA PRODUTORA E EXPORTADORA DE CARNE SUÍNA (ABIPECS)

'É uma pena. Acho que todos trabalhávamos para um acordo modesto, mas um acordo. O fracasso é ruim, mas também não é fim do mundo, tem que olhar para a frente. Essas regras multilaterais têm 50 anos, não vai ser um revés que vai colocar tudo em risco, nao é caos.

Você não ganha os aumentos que iriaM ocorrer agora, mas a vida continua. O que o Brasil cresceu de exportaDor agrícola nos últimos 15 anos não teve nada a ver com a Rodada do Uruguai, mas sim com o aumento de produtividade, reforma estrutural. Vai continuar nessa linha. Não é o que queríamos, mas não é golpe não.

GILSON XIMENES, PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DE CAFÉ (CNC), LIGADO A PRODUTORES

'Não tem impacto para o setor de café.

O café é um produto essencialmente financeiro, depende muito de bolsa, é um negócio completamente diferente.

Não acredito que haveria redução de tarifa para o produto industrializado.'

(Reportagem de Camila Moreira, Aluísio Alves, Roberto Samora, Inaê Riveras e Gustavo Nicolleta; edição de Marcelo Teixeira)

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