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O valor de mercado das empresas negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu abaixo de US$ 1 trilhão pela primeira vez em 12 meses. Segundo levantamento da empresa de informações financeiras Economática, até o fechamento de ontem o preço das companhias havia retornado aos níveis de agosto de 2007 e somava US$ 934 bilhões.

Isso significa recuo de 33% (US$ 470 bilhões) em relação à máxima registrada em maio deste ano, de US$ 1,404 trilhão.

Vale e Petrobrás responderam por quase metade das perdas no valor de mercado da bolsa paulista. Nos últimos quatro meses, o preço das duas companhias recuou US$ 200 bilhões, sendo US$ 128 bilhões da Petrobrás e US$ 72 bilhões da Vale. A turbulência internacional, no entanto, atingiu praticamente todas as companhias de capital aberto.

Entre as 100 ações com maiores perdas desde o pico de valorização da bolsa, 77 apresentaram recuo acima de 40% no período, segundo a Economática. Algumas, no entanto, foram influenciadas por problemas internos de gestão, como é o caso de Agrenco, Laep e Tenda. A queda no valor desses papéis é da ordem de 90%, 87% e 76%, respectivamente.

Mas, a exemplo de Petrobrás e Vale, o preço de outras empresas saudáveis desceu ladeira abaixo. É o caso de Usiminas (-53%), CSN (-48%) e Gerdau (-44%). Essas empresas são impactadas diretamente pela queda no preço das commodities, que inverteram a curva e começaram a cair desde agosto, seja por causa do movimento de especulação dos investidores ou pela perspectiva de retração da economia mundial. O fato é que cerca de 60% das empresas negociadas na Bovespa têm alguma ligação com o mercado de commodities.

Outra explicação é que nos últimos anos a bolsa brasileira se tornou a queridinha dos investidores estrangeiros. Com a turbulência, eles se desfizeram de aplicações de risco e correram atrás de papéis mais conservadores, como é o caso do títulos do tesouro americano.

Para o diretor-geral da Enfoque Informações Financeiras, Fausto de Arruda Botelho, as quedas verificadas até agora no mercado acionário não são surpresa. Segundo ele, trata-se do maior período de alta do mercado acionário desde a década de 60. O ciclo atual de alta somou 2.053 dias, entre outubro de 2002 e maio de 2008. Até então o período de maior bonança no mercado acionário havia sido entre dezembro de 1966 e junho de 1971, o que somava 1.637 dias.

Portanto, alerta o executivo, os investidores podem esperar mais correções nos preços nos próximos meses ou até anos. "Trata-se de um processo de ação e reação. Se estica 100%, pode corrigir 40%, 50% ou 60%. No caso da bolsa brasileira, é possível que haja uma correção de mais 40%." Botelho argumenta que nunca acreditou que o Brasil estivesse descolado do resto do mundo. O movimento contrário da bolsa paulista durante alguns meses no primeiro semestre era uma distorção temporária, diz ele.

Na avaliação do gestor da Modal Asset Management, André Simões, a principal mensagem para o investidor neste momento é de cautela. Ele explica que muitas pessoas foram estimuladas a entrar no mercado acionário por causa dos ganhos exorbitantes da bolsa nos últimos anos. "Hoje boa parte dos investidores está com o portfólio errado, muito exposto ao risco das ações. Isso tudo faz com que o pânico seja grande."

Embora destaque que a crise atual é grave, Simões diz que é muito complicado avaliar o tamanho da desaceleração da economia mundial. Um dos grandes problemas para os próximos anos será a escassez de crédito no mercado. "Nos últimos anos, o volume de dinheiro à disposição foi muito importante para o avanço da economia global. Mas acredito que a concessão do crédito vai ficar mais escassa e cara em breve."

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