A Vale decidiu enterrar de vez o tradicional sistema de preço de referência para a venda de minério de ferro e negocia com siderúrgicas a adoção de um novo modelo, com base na cotação do mercado à vista. Os reajustes, antes anuais, passariam a ser trimestrais.

A mudança de rumo tem encontrado forte resistência no setor siderúrgico internacional, que chega a acusar a mineradora brasileira de formação de oligopólio, junto com as australianas BHP Billiton e Rio Tinto. Em nota divulgada ontem, a Vale confirmou que busca uma política comercial mais flexível, que seja facilmente aplicável aos diferentes mercados onde atua.

"Tal política reflete a realidade de mercado e as necessidades específicas de cada cliente", diz a nota. Segundo uma fonte que acompanha as negociações, a intenção da Vale é adotar oficialmente a nova metodologia a partir de abril, quando vencem os contratos fechados com siderúrgicas da Ásia.

O analista de mineração do Banco do Brasil, Antônio Emílio Bittencourt Ruiz, estima que o aumento médio de 100%, proposto pela Vale, pode acrescentar cerca de US$ 12,8 bilhões ao faturamento anual da mineradora apenas com a venda de minério de ferro em 2010. A cifra corresponde a mais do que o dobro do lucro da companhia no ano passado, que ficou em US$ 5,349 bilhões, pelo padrão de contabilidade americano.

Com esse patamar de reajuste, Ruiz calcula que o faturamento bruto total da companhia seria elevado em 53%. Segundo ele, o ganho para a Vale no atual cenário de maior demanda por insumos básicos deve ser ainda maior. Isso porque o cálculo não leva em conta o reajuste para pelotas, tradicionalmente maior do que o fechado para o minério de ferro, nem a perspectiva de um volume maior de vendas.

O novo sistema toma como referência o preço de US$ 125,90 por tonelada, valor que corresponde à média da cotação do insumo entre janeiro e fevereiro calculada pelo Índice Platts, o mais antigo do mercado. O indicador americano reflete o custo do minério de ferro no mercado à vista da China sem o frete.

Caso o sistema de indexação siga o modelo da consultoria de commodities americana Platts, o aumento médio do preço do minério seria de 95%. O cálculo é do analista Ivan Fadel, do Credit Suisse. Segundo ele, com a adoção do novo sistema, a cotação do insumo sobe para US$ 122,20 por tonelada, um reajuste de 114% frente ao valor de US$ 57 fechado em 2009 para os contratos de longo prazo.

Ajuste fino. Segundo uma fonte próxima às negociações, a mudança no modelo permite uma calibragem mais fina das oscilações de demanda. Pelo novo sistema, o valor dos contratos poderia ser alterado a cada reajuste de 5% para cima ou para baixo no preço médio do produto no mercado à vista.

Mas a grita da siderurgia mundial mostra que os planos da Vale vão encontrar forte resistência no setor. A primeira a levantar a bandeira foi a associação europeia da indústria siderúrgica, a Eurofer, que ameaçou entrar com uma queixa no órgãos reguladores da concorrência. Para a Eurofer, a Vale abusa da posição de maior produtora mundial nas negociações. A reclamação encontra eco também na Ásia. A China acusa a brasileira Vale, a Rio Tinto e a BHP Billiton de atuarem como um "oligopólio" no fornecimento de minerais, encarecendo o produto.

O representante do Centro de Pesquisas de Desenvolvimento do Conselho de Estado da China, Hu Jiangyun, afirma que o movimento gerou perdas de US$ 100 bilhões à economia chinesa nos últimos seis anos.

Fontes no setor argumentam, porém, que a forte demanda permite a adoção de um reajuste na casa dos 100%. O analista Pedro Galdi, da corretora SLW, diz que as siderúrgicas não terão muita margem de manobra para evitar um reajuste alto. "Qualquer reajuste entre 80% e 140% será bem-vindo", brincou, ao lembrar que a própria Vale trabalha com um déficit de 5% na demanda por minério de ferro em 2010.

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