Depois da onda de euforia com os biocombustíveis, que representou investimentos da ordem de R$ 50 bilhões nos últimos quatro anos, o setor sucroalcooleiro começa a fazer as contas para conseguir honrar todos os compromissos, incluindo pagar salários dos empregados. Sem acesso ao crédito, com dívidas elevadas e mal estruturadas, várias empresas já estão inadimplentes, em cerca de 30%, com fornecedores de equipamentos, diz o Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroalcooleiro e Energético (Ceise).

Além disso, projetos de peso foram adiados.

O presidente da União dos Produtores de Bioenergia (Udop), José Carlos Toledo, explica que os usineiros estão num momento de eleger prioridades, mas lamenta não haver dinheiro suficiente para todas as contas. "O salário dos funcionários está no topo da lista, mesmo assim, tem havido atraso nos pagamentos."

Essa é a situação de pelo menos 75% das companhias de açúcar e álcool, segundo apurou o Estado. Outros 20% já vinham encontrando dificuldades antes mesmo de a crise estourar no cenário internacional. Apenas 5% - que não investiram na expansão das plantas - têm pago em dia os salários.

Para o setor, a rápida contração do crédito tem dois efeitos perversos. Além de não conseguir financiamento para a exportação, as empresas estão altamente endividadas por causa dos investimentos, diz Toledo.

"O problema é que os modelos de financiamentos adotados para a expansão do parque produtor não foram adequados ao retorno necessário. Muitos usaram adiantamento de câmbio e capital de giro para financiar a construção de usina."

Agora, para conseguir dinheiro, a solução tem sido inundar o mercado de etanol - movimento que já provocou a queda do preço do produto. Segundo dados da Cepea/Esalq, nas duas últimas semanas o preço do álcool na usina caiu quase 7%, num momento em que a safra está acabando e a tendência normal era o valor subir.

"A única forma de as empresas continuarem produzindo é vendendo álcool, mas, quanto mais produto é ofertado mais o preço cai e mais produto precisa ser vendido. É um círculo sem fim", diz o diretor da União da Agroindústria Canavieira (Unica), Antonio de Pádua Rodrigues.

Ele afirma que a euforia em torno dos biocombustíveis fez o setor operar com baixa rentabilidade. "O nível de preços de 2006 estava com boa remuneração. Em 2007 e 2008, o investimento se acelerou e o preço não acompanhou."

Dados da Unica mostram que a expectativa era levantar 120 projetos entre 2008 e 2010. Agora, há expectativa de que cerca de 95 usinas sejam postergadas. O Grupo Equipav, por exemplo, anunciou que vai adiar o investimento de US$ 250 milhões na construção de duas novas unidades,em Mato Grosso do Sul e em Goiás. Segundo a empresa, que já havia iniciado plantio de 1,5 mil hectares de cana, as unidades que entrariam em operação em 2009 e 2010 foram adiadas para 2011 e 2012.

O mesmo ocorreu com a Açúcar Guarani. Apesar de ter recebido US$ 220 milhões de seu controlador (o francês Tereos) para administrar dívidas de curto prazo, a empresa adiou dois projetos. "Com o dinheiro recebido pelo grupo controlador, a Guarani se fortalece para enfrentar a crise global. Mas, ante o momento de incertezas, a empresa adia os dois projetos", destacou.

A palavra de ordem do setor agora é levar adiante apenas projetos em andamento. "Estamos focados na complementação dos investimentos iniciados. Decidimos postergar dois outros projetos para 2010 e 2012", diz Marcelo Vieira, sócio da Adecoagro, que também pertence ao megainvestidor George Soros.

Sérgio Thompson-Flores, presidente da Infinity, avalia que é preciso fazer um planejamento mais conservador e ter gestão de caixa mais cautelosa para conseguir passar pela crise. Com essa estratégia, o executivo adiou quatro projetos para 2010 e 2011. O setor deve entregar amanhã ao governo um mapeamento da situação das empresas.

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