O agravamento da crise externa, a partir da derrocada do banco de investimento Lehman Brothers, inverteu os sinais do fluxo de capitais financeiros no Brasil em setembro. Em apenas uma semana, o indicador que mede o movimento de dólares no chamado câmbio financeiro - que inclui investimentos em ações e títulos da dívida, além de remessas de lucros, entre outros - registrou saídas de US$ 2,680 bilhões, entrando no terreno negativo.

Segundo o Banco Central, o mercado acionário foi a principal vítima da fuga dos investidores.

Os números apresentados ontem mostram que mais de meio bilhão de dólares deixou o Brasil em cada um dos cinco dias úteis da semana passada por meio do segmento financeiro. Essa fuga coincidiu com a reação dos investidores ao colapso do Lehman Brothers e às notícias de que outras instituições, como a seguradora AIG, enfrentavam graves problemas e tiveram que ser socorridas pelo Tesouro dos EUA.

Antes dessa deterioração do quadro, o fluxo financeiro registrava ingresso de US$ 725 milhões de investidores estrangeiros nas duas primeiras semanas do mês, até o dia 12. Desde então, prevaleceu a saída. Em cinco dias, todos os US$ 725 milhões foram retirados e houve, ainda, saque adicional equivalente a US$ 1,955 bilhão.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, disse que o impacto mais evidente da crise acontece nas ações. Em setembro até ontem, estrangeiros já se desfizeram de US$ 1,063 bilhão em ações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). "Parte dos investidores está saindo (do País)", disse. Ele observa, contudo, que também é possível observar migração de investidores para a renda fixa em opções como os títulos da dívida pública. Em setembro, essa opção recebeu US$ 818 milhões em novas aplicações.

Outro possível reflexo é a capacidade que empresas brasileiras têm de renovar dívidas no exterior, a chamada "rolagem", que em agosto ficou em 144% e em setembro caiu para 119%, valores menores do que os 163% verificados no acumulado do ano. Ou seja, os investidores estão tomando menos empréstimos no exterior, embora o volume vencido seja menor do que os novos empréstimos.

Altamir informou que neste mês apenas 28% das dívidas em títulos com vencimento em setembro foram renovadas. Ele tentou no entanto desvincular esse movimento da crise, dizendo que o baixo volume de vencimentos de dívida em setembro distorce essa taxa. Nesse segmento, a concessão de novos empréstimos superou em mais de quatro vezes o total dos vencimentos do mês. Ele admitiu, contudo, que empresas estão com menor capacidade de captação de recursos no exterior.

Apesar do reflexo da crise na economia do Brasil, Altamir assinalou que os números de agosto e setembro mostram que os investidores têm diferenciado o Brasil de outros países e que a confiança permanece. "O momento econômico é muito positivo e o investimento estrangeiro direto, com valores expressivos, mostra que o País está atraindo bastante recursos."

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