A onda de consolidação no mercado brasileiro de distribuição de combustíveis ganhou mais um capítulo ontem, com a aquisição da rede de postos Texaco pelo Grupo Ultra. A compra dos cerca de 2 mil postos da rede, um negócio de R$ 1,161 bilhão, coloca o Ultra na segunda posição entre as maiores empresas em distribuição de combustíveis no País.

Com a nova composição, o Ultra terá 23% do mercado - atrás apenas da Petrobras, dona da distribuidora BR - e passará a atuar em todo o País (com exceção do Estado de Roraima). Hoje, a participação de mercado do Ultra é de 14%.

Essa á a terceira grande aquisição no setor em pouco mais de um ano. No ano passado, Petrobras, Braskem e Ultra compraram a Ipiranga. Na partilha, o Ultra ficou com os postos da bandeira apenas no Sul e no Sudeste e a Petrobras, com as demais regiões. Em abril deste ano, a Cosan, produtora de açúcar e álcool, comprou os ativos da Esso no Brasil. Atualmente, cerca de 80% do mercado está nas mãos desses grupos.

Mercado de US$ 30 bilhões

De acordo com especialistas, o movimento de aquisições é resultado do aquecimento do setor. No ano passado, ele movimentou cerca de US$ 30 bilhões, puxado principalmente pelo forte aumento nas vendas de carros e pelo crescimento da economia. O consumo de combustíveis cresceu 8,5% em relação a 2006.

Segundo o diretor-presidente do Grupo Ultra, Pedro Wongtschowski, a compra da Texaco confirma a aposta no setor, que cresceu 11% no primeiro semestre deste ano. "A renda e o consumo interno cresceram, aumentando a demanda por serviços e investimentos em infra-estrutura, que estão ligados ao segmento", afirmou.

Para Wongtschowski, a estrutura da Texaco vai permitir escala maior ao negócio. "A distribuição de combustíveis é um atividade de varejo, e por isso, exige essa escala", justificou. Segundo o Ultra, a composição proporcionará a ampliação de mais de 60% na sua escala de operações.

Ele disse que, com a compra, a Ipiranga volta a ter acesso a regiões de altas taxas de crescimento de consumo, referindo-se ao Centro-Oeste, Norte e Nordeste, onde o Ultra não atua. Nessas áreas, a distribuição de combustíveis cresceu 14%, contra 11% da média nacional. Com a união das duas operações, o grupo terá uma participação de 9% nesses mercados.

Recursos

A empresa informou que usará os recursos que tem em caixa para efetuar a compra. A liquidação do negócio, porém, deve ocorrer apenas no início do ano que vem, após a separação das atividades de lubrificantes e exploração de petróleo da área de distribuição da Chevron. Além dos ativos da Texaco - postos, lojas de conveniência e estrutura logística -, a transação envolveu o uso da marca Texaco nos próximos cinco anos.

"Trabalharemos com a marca Texaco enquanto a Petrobras usar a marca Ipiranga", disse o diretor-superintendente da Ipiranga, Leocádio Antunes de Almeida Filho. A Petrobras, que ficou com os postos Ipiranga no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, tem o direito de uso da marca até 2012, conforme o contrato assinado no ano passado. Depois, a Ipiranga será a única bandeira de postos de gasolina do Grupo Ultra.

Segundo os executivos da empresa, as lojas de conveniência da Texaco serão mantidas e continuarão a receber investimentos. "Vemos um grande potencial de expansão nessa área", disse o diretor-presidente Pedro Wongtschowski.

Apesar de comentada no mercado há alguns meses, a aquisição fez as ações preferenciais da Ultrapar Participações dispararem. Os papéis registraram ontem a maior valorização do índice Bovespa, da Bolsa de Valores de São Paulo. As ações do grupo subiram 5,25%.

Rede de postos

Segundo o presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes, Paulo Mirando Soares, outro diferencial das unidades da Texaco, além da presença expressiva nesses locais, é o perfil de seus postos nas grandes cidades. "A Texaco há anos vem selecionando a rede, por isso possui boas unidades, instaladas em áreas superiores a 3 mil metros quadrados", disse.

Na prática, isso garante ao Ultra condições de obter melhores margens mesmo antes de fechar unidades pequenas da Ipiranga e abrir ou comprar novos postos, de maior porte e melhor localizados. Hoje, a Ipiranga possui cerca de 3,3 mil postos em operação no País.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de São Paulo (Sincopetro), José Alberto Paiva Gouveia, lembra que o controle sobre postos próprios dá à empresa condições mais flexíveis de operação, já que não é necessária a assinatura de contratos de longo prazo de fornecimento, como acontece com unidades franqueadas.

"Nessas condições, a empresa garante mais acesso às operações do posto", disse Gouveia. O perfil das unidades é considerado fundamental no setor, visto que as margens dos distribuidores estão estreitas, segundo Gouveia. "Hoje, o lucro por litro, pequeno, é compensado pelo volume."

Por isso, especialistas acreditam na redução do número de empresas atuando em distribuição de combustíveis, seja por aquisições, seja pelas dificuldades enfrentadas por empresas irregulares após o aumento da fiscalização sobre as atividades do setor, com a obrigação de emissão de nota fiscal eletrônica.

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