Após intenso debate, a União Européia (UE) adotou ontem um pacote de sete medidas e princípios para tentar conter a crise, mas fracassou em tentar um acordo sobre a criação de um fundo de emergência. A iniciativa é a primeira tomada de forma coletiva pelos 27 países do bloco diante da crise que, segundo analistas, pode ser mais dura na Europa que nos Estados Unidos.

As medidas incluem garantias aos correntistas em todo o bloco, para evitar uma corrida aos bancos.

"Reiteramos nossa determinação de garantir a estabilidade e a solidez de nosso sistema bancário", disse a ministra de Finanças da França, Christine Lagarde. "Não vamos tolerar uma situação como a do Lehman Brothers." O pedido de concordata do banco de investimentos americano, há duas semanas, é considerado o maior da história e tido como o fator inicial da atual turbulência. Lagarde tentou dar sinais de que os 27 governos estavam unidos.

Franceses, italianos e holandeses desembarcaram em Luxemburgo propondo um fundo ao estilo americano. Como a UE não tem orçamento federal, a proposta era que cada país desse sua contribuição, segundo seu PIB. A Alemanha, maior economia, se recusou a pagar "por bancos estrangeiros que cometeram erros".

O ministro de Finanças alemão, Peer Steinbrueck, disse que chanceler Angela Merkel rejeitou a idéia de um fundo para comprar ativos podres dos bancos. "Nossa proposta era ter um fundo em cada país, não uma coisa única", disse o ministro de Finanças da Itália, Giulio Tremonti. Segundo ele, cada fundo salvaria seus bancos. Mas, com bancos transnacionais atuando em todo o continente, alguns acabariam pagando por outros.

No lugar do fundo, a UE anunciou que vai resgatar grandes grupos financeiros. A lista das instituições não foi publicada, ministros só disseram que se seriam "bancos relevantes para o sistema". A reunião de emergência foi convocada depois das falências do Hypo Real Estate, na Alemanha, do belgo-holandês Fortis e do franco-belga Dexia.

Entre os sete "princípios comuns" adotados está a possibilidade de intervenções "temporárias" em instituições financeiras. "Tomaremos todas as medidas necessárias para garantir a estabilidade do sistema bancário e para proteger correntistas", afirmaram os ministros em comunicado.

Eles concordaram que os governos terão de atuar em seus próprios países para dar apoio às instituições financeiras. Mas a estratégia de "cada um por si" não agradou a todos no mercado. Há o temor de que crises acentuadas em países menores não sejam domadas e afetem outros. Ainda pelo pacote, os governos poderão demitir executivos de bancos estatizados. Não houve acordo sobre a supervisão de seguradoras.

Uma das principais medidas foi a elevação das garantias aos correntistas nos 27 países do bloco. A garantia, de 20 mil, passa a pelo menos 50 mil dos depósitos bancários, para evitar uma corrida para saques, por temor da piora da crise.

Alguns países elevarão as garantias para 100 mil e queriam que a regra fosse estabelecida para todos. Mas países menores disseram que não teriam como cobrir um seguro desse tamanho. "Uma série de países membros, eu diria que a maioria, têm mostrado preferência de colocar 100 mil como mínimo", afirmou o ministro espanhol, Pedro Solbes. As medidas serão válidas por um ano.

Uma das preocupações dos europeus é que medidas unilaterais provoquem concorrência desleal entre os países. Ao garantir os depósitos, um país poderia causar uma evasão de recursos de outras economias para seus bancos, supostamente mais seguros. Foi disso que se queixou o Reino Unido quando a Irlanda tomou a iniciativa na semana passada. Na segunda, sem um acordo, Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia, Dinamarca e Grécia seguiram o mesmo caminho.

Na Alemanha, o governo foi atacado ontem pela oposição, já que a promessa de que garantia os depósitos não foi transformada em lei e apenas seria "uma palavra de honra". Na Irlanda, as garantias já são lei. Para a oposição, as garantias têm efeito, acima de tudo, psicológico.

O Banco Central Europeu injetou ontem US$ 50 bilhões na economia, pelo segundo dia consecutivo. As ações na Europa subiram depois que Federal Reserve (Fed, o banco central americano) deu garantias a papéis comerciais. O dia terminou com perdas modestas.

A situação mais crítica foi a dos bancos ingleses diante dos rumores de que teriam pedido ajuda ao governo. As ações do Royal Bank of Scotland Group caíram 39%, as do HBOS, 41,5%, as do LLoyds 12,9% e as do Barclays, 9,2%. O governo negocia injetar US$ 87 bilhões em seus bancos. Na Islândia, o segundo maior banco foi nacionalizado e o BC fixou a taxa de câmbio. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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