Na capital com raros e cobiçados espaços nobres, as 91 estações de distribuição de energia da Eletropaulo ocupam uma área do tamanho de sete parques da Água Branca, na zona oeste, ou mais de meio Ibirapuera. Para valorizar pelo menos 11 terrenos de 10 mil metros quadrados cada, localizados nas zonas oeste e sul, a Eletropaulo planeja compactar torres metálicas de até 15 metros de altura e fiações de alta voltagem em centrais digitalizadas de última geração.

Com as áreas vagas, em um total de 95 mil metros quadrados, a empresa quer lucrar por meio de parcerias com construtoras, que se colocam à disposição para bancar a modernização das estações.

A primeira experiência já pode ser observada em uma das partes mais nobres de São Paulo, no bairro Cidade Jardim, na Rua Hungria, local onde o metro quadrado custa em média R$ 4,2 mil. Outras dez estações serão compactadas e os espaços vagos dos terrenos (85% do total ocupado hoje) devem ser vendidos.

Em pouco mais de um ano, a Subestação Itaim foi "abrigada" em um prédio de apenas 1,5 mil m². As torres de distribuição foram substituídas por equipamentos de tecnologia híbrida, que possibilitam a conexão externa com aparelhos isolados a ar e com a central de comando da empresa na Rua Tabatinguera, no centro.

No lugar das torres, a Klabin Segall começou as obras para a construção de dois prédios, com apartamentos de até cinco suítes e preços a partir de R$ 4 milhões. "O preço da venda do terreno (R$ 38,6 milhões) foi totalmente aplicado na implementação da nova tecnologia que permite compactar as estações. Não existe risco algum ou qualquer passivo ambiental para os futuros moradores. E a região ficou mais bonita sem os fios expostos", defende Roberto Mário Di Nardo, diretor-executivo da Eletropaulo.

"A arquitetura dos prédios compactados tem de combinar com a região também. E, no caso do Itaim, a Eletropaulo tinha títulos do Cepac (Certificado de Potencial Adicional de Construção) por causa do soterramento de fios. Como a construtora que comprou o terreno precisava também de títulos, nós vendemos a eles."

A Eletropaulo argumenta não poder especificar quais são os outros dez terrenos de estações que estão sendo negociados. Mas hoje existem subestações, por exemplo, em três dos bairros mais valorizados de São Paulo - e que estão entre os campeões de lançamentos imobiliários nos últimos dois anos na capital: Barra Funda, Butantã e Jaguaré, todos na zona oeste.

Segundo o diretor-executivo da empresa, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a venda do terreno para dupla ocupação. "Estamos dentro da lei. Tudo na estação está informatizado e digitalizado. Os técnicos podem fazer os trabalhos de manutenção em dias de chuva, por exemplo, o que ainda não pode ser feito nas estações ao ar livre", acrescentou Di Nardo.

Especialistas afirmam nunca ter sido comprovada a emissão de radiação das estações de energia. Mas Eduardo Côrrea Anunciatto, secretário-geral do Sindicato dos Eletricitários, é contra a parceria entre a Eletropaulo e as construtoras. "Não existe comprovação científica sobre os riscos da radiação das estações. Mas diversos estudos apontam que morar perto de uma estrutura de alta voltagem pode causar mutações nas células ao longo dos anos, o que pode dar origem a câncer de diferentes tipos", afirma Anunciatto. "O sindicato está na Justiça tentando obter uma aposentadoria especial para os trabalhadores que trabalhavam nas estações", acrescentou.

Coordenador da pós-graduação da Faculdade de Engenharia Elétrica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Castro afirma que não existe o risco comprovado dos efeitos do eletromagnetismo no corpo humano. "As opiniões e os estudos são muito controversos sobre o tema. Existem estudos que até já apontaram pessoas que teriam sofrido alterações genéticas por causa das radiações das estações, mas também há trabalhos acadêmicos que dizem o contrário", diz o pesquisador. "A certeza é de que não há conclusão sobre se existe o risco ou não."

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