Tamanho do texto

WASHINGTON - Foi preciso chamar a polícia para acalmar as centenas de clientes que correram até o escritório da seguradora americana AIG em Cingapura para resgatar suas apólices na quarta-feira passada, assim que as notícias sobre a estatização da empresa começaram a circular. Não adiantou muito.

Quem foi para casa acabou voltando nos dias seguintes para sacar o dinheiro.

O mesmo tipo de nervosismo pôde ser observado no comportamento dos investidores estrangeiros em outros mercados durante a semana. Bancos centrais e fundos de investimento controlados por países asiáticos e produtores de petróleo fugiram em massa das esquinas mais escuras de Wall Street, em busca de refúgio para suas aplicações.

Essa agitação alimentou dúvidas sobre a capacidade que os Estados Unidos terão de continuar atraindo os gigantescos fluxos de capital externo de que necessitam para financiar sua economia. Mas ela também deixou claro que os investidores continuam depositando confiança no valor do dólar e na capacidade que o governo americano tem de pagar suas dívidas.

No mesmo dia em que os clientes da AIG foram para as ruas em Cingapura, a demanda por títulos do Tesouro dos EUA tornou-se tão intensa que o governo conseguiu vender papéis com vencimento para três meses sem oferecer aos investidores nenhum rendimento, nada além da promessa de um colchão seguro para seus recursos.

Em países emergentes como o Brasil, crises de confiança semelhantes obrigaram o governo no passado a aumentar os juros dramaticamente para evitar a fuga de investidores estrangeiros e a corrosão do valor da moeda nacional. No caso dos EUA, nada disso está ocorrendo.

" Todo mundo está fugindo dos ativos mais arriscados, mas isso não significa que o dólar tenha sido abandonado " , diz o ex-secretário-assistente do Tesouro para assuntos internacionais Edwin Truman, hoje no Instituto Peterson para a Economia Internacional. " As pessoas podem não querer saber de ações do Citigroup agora, mas continuam comprando bônus do Tesouro. "
Estatísticas divulgadas pelo governo na semana passada sugerem que esse movimento teve início antes que o último temporal desabasse. Em julho, investidores estrangeiros com aplicações no mercado americano compraram US$ 2,819 trilhões em títulos e venderam US$ 2,845 trilhões. Em termos líquidos, isso significa que eles se desfizeram de cerca de US$ 26 bilhões.

Mas um exame detalhado dos números do Tesouro mostra que os investidores estrangeiros foram muito seletivos. Em termos líquidos, eles compraram em julho US$ 34,3 bilhões em papéis do governo, venderam US$ 50 bilhões em títulos dos gigantes do mercado de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac e se desfizeram de US$ 9,8 bilhões em ações e títulos de empresas privadas.

Se essa tendência se mantiver, isso significa que os bancos e as empresas americanas continuarão encontrando dificuldades para obter financiamento, mas o governo não. Isso poderá ajudar o Tesouro a levantar os volumosos recursos necessários para o programa que o governo apresentou para arrumar os balanços dos bancos e recuperar a confiança no sistema financeiro.

No ano passado, quando a infecção gerada pelos problemas no mercado imobiliário começou a aparecer nos livros contábeis de Wall Street, fundos de investimento controlados por governos estrangeiros injetaram bilhões de dólares em bancos americanos, ajudando a capitalizá-los num momento crítico em troca de um pedaço significativo do seu controle acionário.

Um desses fundos, a China Investment Corporation (CIC), está agora em negociações para injetar um volume ainda maior de recursos no banco de investimentos Morgan Stanley, onde investiu US$ 5 bilhões no fim do ano passado. Mas parece ser um caso isolado. Os resultados dos investimentos feitos no passado foram decepcionantes e agora os fundos soberanos parecem hesitar antes de repetir a aposta.

" Hoje está claro que os fundos soberanos que investiram nesses bancos compraram muito cedo, pagaram muito caro e subestimaram as dificuldades do setor financeiro nos EUA " , diz o economista Brad Setser, do Conselho de Relações Exteriores, um influente centro de estudos. " Isso contribuiu para a redução geral de apetite dos investidores estrangeiros por ativos de risco " .

Entre novembro do ano passado e janeiro, fundos controlados pelos governos da China, da Coréia do Sul, de Cingapura, do Kuwait e de Abu Dhabi injetaram mais de US$ 32 bilhões no Citigroup e em dois bancos de investimento, o Morgan Stanley e o Merrill Lynch, que agora está sendo absorvido pelo Bank of America. As ações dessas três instituições se desvalorizaram bastante desde então.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) calcula que o déficit externo dos EUA deve passar de US$ 615 bilhões neste ano, o equivalente a cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) americano. Ele tem diminuído, graças à desaceleração do consumo doméstico e ao avanço das exportações americanas, mas a dependência que o país tem de capital externo ainda é enorme.

Países emergentes como a China, o Japão e os grandes produtores de petróleo do Oriente Médio ajudaram os americanos a financiar esse déficit comprando dólares e acumulando reservas gigantescas nos últimos anos. Eles fazem isso para manter suas moedas desvalorizadas e assim tornar suas exportações mais competitivas e lucrativas.

Muitos economistas acreditam que esses países continuarão financiando os EUA simplesmente porque é do seu interesse. Apesar do pânico em Wall Street, eles acham que as coisas precisariam piorar muito para essa gente mudar de idéia. " Esta é uma economia de US$ 14 trilhões e sua dívida ainda é menor que a de outros países avançados, em relação ao PIB " , diz Truman. " A idéia de que o país está perto de falir não tem sentido. "
"(Ricardo Balthazar | Valor Econômico)"

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.