A desaceleração dos preços das commodities no mercado internacional, pela velocidade com que vem ocorrendo, continua a trazer sérias preocupações para a balança comercial brasileira em 2009, segundo o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Ele projeta para o próximo ano um superávit de apenas US$ 4,4 bilhões no comércio exterior do Brasil.

Os preços das commodities caíram 11,5% de 1º de agosto até ontem, segundo o Commodity Research Bureau (CRB). Para este ano, a média das expectativas dos analistas do mercado financeiro para a balança comercial na Pesquisa Focus é de superávit de US$ 23,6 bilhões.

"Quando os preços das commodities começaram a cair no mercado internacional, no começo de agosto, o que mais se discutia era se esse processo era curto ou longo, mas estamos com a percepção de que é longo e vai prejudicar a balança comercial", disse o economista.

Para Sérgio Vale, o preço do dólar hoje, na casa do R$ 1,80, é temporário. Ele acredita que a cotação não deverá fechar o ano abaixo de R$ 1,70, mas não ficará no nível atual. Nesse caso, disse ele, o que mais vai pesar é mesmo a queda do preço das commodities.

Num primeiro momento, segundo Vale, a idéia era de que, no primeiro trimestre, a economia norte-americana estava melhor que a européia. "Ficou a impressão de que em algum momento a Europa deveria baixar juros e os EUA, subir; isso foi o que elevou o preço do dólar."

Para ele, o que se vê agora é uma economia norte-americana muito mal, com dados do PIB ilusórios, já que o Bureau of Economic Analysis (BEA) faz muitas revisões do PIB norte-americano. "Por quatro vezes seguidas o BEA errou o timing. Não soube dizer, com os dados que tinha, quando começava e quando terminaria a recessão", lembrou Vale.

Outro fator que preocupa na economia americana, que valida o receio do Brasil com a balança comercial, é o atual nível de desemprego nos EUA. De acordo com o economista da MB Associados, nas últimas dez recessões da economia norte-americana, a taxa de desemprego subiu para o mesmo nível em que se encontra atualmente. Em agosto, atingiu 6,1%, o maior nível em quase cinco anos. O país perdeu no mês passado 84 mil postos de trabalho, o oitavo mês consecutivo de queda no número de vagas, somando 605 mil empregos perdidos em 2008.

"Muita gente ainda alimenta a ilusão de que a situação da economia americana vai melhorar com um possível aumento das exportações. Se esquecem de que os EUA não são tão abertos assim. Por isso, acredito que o peso do desemprego será melhor para mostrar o tamanho da recessão da economia norte-americana", disse Vale.

Segundo ele, a questão do déficit em conta corrente brasileiro causa preocupação muito grande. "Os preços das commodities pesam muito, mas não são só eles que estão desacelerando", disse ele, acrescentando que o mundo também está em processo de desaceleração.

Por conta disso, ele já projeta um déficit na conta corrente para 2010 da ordem de US$ 50 bilhões. Para o economista, isso dará o tom do câmbio nos próximos dois anos. "Essa depreciação (desvalorização) agora é temporária e se dá por causa da turbulência internacional. Passado isso, deverá ocorrer uma apreciação (valorização)", previu ele.

Vale acrescenta ainda como causador de turbulência no câmbio a área fiscal, que não será tão boa agora por causa das eleições, da desaceleração do PIB em 2009, para 3,50%, de 6% neste ano, e da redução da receita real de 12% para 7%.

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