O mercado financeiro, especialmente o de juros, repercutirá hoje a troca do diretor de Política Monetária do Banco Central (BC). Sai um representante da iniciativa privada, Mário Torós, ex-executivo do banco Santander, e entra um profissional ligado ao Banco do Brasil (BB), Aldo Luiz Mendes.

"É um homem do (ministro da Fazenda Guido) Mantega no coração do BC", afirmou um analista que pediu para não ser identificado.

Fontes que conhecem Mendes discordam. "Ele não é um homem do Mantega. É uma pessoa qualificada, que poderá fazer a interlocução entre a Fazenda e o BC", afirmou um profissional próximo do ex-vice-presidente do BB e atual presidente da Companhia de Seguros Aliança do Brasil (subsidiária do banco).

Quando o governo trocou o presidente do BB - Antônio Francisco de Lima Neto deu lugar a Aldemir Bendine -, Mendes foi um dos vice-presidentes mantidos no cargo. Ele deixou a função há cerca de três meses para assumir a seguradora.

O Estado apurou que o martelo em torno do nome de Mendes foi batido na sexta-feira, dia em que a polêmica entrevista de Torós ao jornal Valor Econômico foi publicada. Ontem, Torós participou de um seminário na sede do BC no Rio de Janeiro, em comemoração aos 30 anos do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic).

Se existem divergências sobre a posição de Mendes em relação a Mantega, o mesmo não pode ser dito quanto a Torós. Na entrevista ao Valor, o ex-diretor do BC disse que o ministro foi um dos principais responsáveis pela disparada do dólar no auge da crise global.

Segundo Torós, Mantega teria dito, em uma entrevista coletiva concedida no dia 6 de outubro, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva proibira o Banco Central de gastar dólares das reservas internacionais para tentar segurar a cotação. A moeda americana, segundo o relato de Torós, teria imediatamente saltado de R$ 2,19 para R$ 2,45.

De fato, houve uma forte alta da cotação do dólar naqueles dias, mas em uma dimensão inferior à do relato - na sexta-feira anterior, dia 3 de outubro, a moeda fechara a R$ 2,04. No dia 6, avançou para R$ 2,20. No dia 7, subiu mais ainda, para R$ 2,31.

Conforme o Estado apurou, assessores de Mantega passaram a sexta-feira e o fim de semana reunindo recortes de jornal e cópias de notícias de agências para provar que o ministro nunca disse aquilo.

Recentemente, Torós e Mantega divergiram sobre a compra de mais dólares para as reservas internacionais. O ministro, que enxerga na expressiva valorização do real um risco para a indústria e para as exportações brasileiras, queria intensificar a aquisição de mais dólares. Torós discordou.

Em mais de uma ocasião, o ex-diretor do BC afirmou que, quanto mais o Brasil comprar dólares (e, por tabela, quanto maiores forem as reservas internacionais), mais capital estrangeiro o País vai atrair - o que, evidentemente, torna a valorizar o real.

Antes de decidir cobrar IOF nos investimentos estrangeiros em rendas fixa e variável, Mantega se aconselhou com diversos especialistas do mercado financeiro. De ao menos um deles ouviu que seria interessante acelerar a compra de reservas internacionais. Em resposta a esse interlocutor, o ministro afirmou, contrariado, que Torós (responsável dentro do BC pela operação das reservas) se opunha à ideia.

A política cambial é o tema da mais recente das inúmeras polêmicas envolvendo o Ministério da Fazenda e o Banco Central. Logo depois da divulgação da cobrança do IOF de 2%, o BC fez questão de mostrar ao mercado que não concordava com a medida para conter a valorização do real.

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