Brasília, 16 - O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, criticou hoje a atividade pecuária desenvolvida por alguns pecuaristas na Amazônia. Não faz nenhum sentido que hoje um pecuarista derrube de 4 mil a 5 mil hectares na Amazônia, no Bioma Amazônico, para colocar 5 mil cabeças de gado e criar dois empregos, afirmou, em discurso durante cerimônia na sede da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) para assinatura de protocolo que tem o objetivo de estimular o investimento das cooperativas no mercado de carbono.

Essa situação, lembrou Stephanes, não "faz nenhum sentido porque tem tanta área de pastagem para ser recuperada, para ser melhorada em termos de rendimento". Durante o evento, o ministro reafirmou que é possível dobrar a produção agrícola do País sem derrubar uma única árvore. "Eu até posso dizer que eu sou ambientalista", afirmou ele ao lembrar que o meio ambiente é uma das suas preocupações.

Stephanes disse que as cooperativas estão "dando um grande exemplo e fazendo a sua parte". A partir daí, o ministro optou pela via poética. "É um grande exemplo, só que eu estou olhando para elas e vendo-as muito mais como aquele colibri do que como um bombeiro que está apagando o incêndio na floresta", afirmou. "É como o beija-flor, que pega uma gotinha, e perguntam para ele porque está fazendo isso, (porque) não vai adiantar nada. E o beija-flor responde: estou fazendo isso porque é a minha parte, estou dando um grande exemplo. As cooperativas estão na mesma linha", completou.

O ministro lembrou ainda que o Brasil é o 18º país do mundo em poluição e que está muito distante dos países que ocupam os primeiros lugares na lista. "Se somarmos a China, os Estados Unidos e a União Européia, a participação brasileira no processo de aquecimento global é um pouco mais de 1%", afirmou.

Ele cobrou mais iniciativa dos países ricos no combate ao aquecimento global. "Isso significa que tudo que o Brasil fizesse não iria ter nenhum importância se os outros três conjuntos de países não fizessem a sua parte. Com certeza não estão fazendo a sua parte", afirmou.

'Ambientalista'

Além de se intitular "ambientalista", Stephanes disse que o Brasil é país mais ecológico do mundo, o que não tem evitado as críticas. "Basta analisar os dados referente ao uso de energia limpa, de práticas na agricultura, mas por sua vez, também, é o País que mais apanha. E os grandes poluidores, que para citar só os três maiores, que são Estados Unidos, China e União Européia, estão muito tranqüilos e ainda com a capacidade de nos criticar", afirmou.

Lembrando que estava fazendo uma brincadeira que não poderia ser levada ao pé da letra pela imprensa, o ministro também disse que "é mais fácil haver a extinção da agricultura brasileira do que da floresta".

Ele explicou a colocação. "Se vocês somarem todas as reservas criadas no Brasil, só as indígenas dão cinco Estados do Paraná. Mais as quilombolas, as florestas de preservação permanente, as florestas de uso sustentável, as reservas legais, a não utilização das encostas, a não utilização acima de determinada altitude, os senhores sabem que já congelamos aí 70% do território nacional", afirmou. "Ou seja, se continuarmos nesse ritmo, daqui uns anos não vai mais sobrar nada. Então, daí é mais fácil entrar em extinção a agricultura do que o meio ambiente".

Stephanes pediu que o assunto seja tratado com mais "racionalidade". "Nós temos alguns Estados brasileiros em que a capacidade de uso do solo está restrita a 2,18%, o resto já está proibido. Então, temos que tomar um pouco de cuidado em relação a isso", afirmou.

Renegociação da Dívida

Ao deixar a sede da OCB, Stephanes afirmou que seria uma "irresponsabilidade" não votar hoje no Congresso Nacional a Medida Provisória (MP) 432, que traz as condições para renegociação das dívidas do setor rural. Segundo o ministro, dois partidos têm obstruído a pauta de votações, em um movimento que acabará prejudicando os produtores rurais.

"O prejuízo será do agricultor", disse, ao ressaltar que o texto da MP foi negociado por um período de 10 meses e que o governo aceitou algumas das emendas apresentadas pelos parlamentares na Câmara.

Insumos

O ministro comentou ainda a reunião que teve pela manhã com o presidente da Mosaic Fertilizantes do Brasil, Tobias Grasso, e reafirmou que busca com a iniciativa privada o desenvolvimento de uma "agenda positiva". Segundo ele, a idéia é adotar medidas que possam reduzir a dependência do Brasil por fertilizantes importados.

Na conversa, relatou o ministro, o presidente da Mosaic colocou à disposição do governo técnicos que possam trabalhar na exploração de minas de potássio, que é a especialidade da empresa.

Stephanes fez rápido relato sobre as negociações em torna da Rodada Doha, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), que terá uma nova etapa em Genebra, na semana que vem. "É só mais uma rodada, possivelmente ela terminará sem resultados positivos", afirmou.

Cana

Um outro ponto abordado pelo ministro foi o zoneamento agrícola para a cana-de-açúcar. Ele disse que o estudo estará pronto até o fim deste mês e será divulgado em agosto. "Como princípio básico, não haverá autorização para plantio na Amazônia". Ele observou ainda que haverá restrições para o plantio nas áreas de mata atlântica, pantanal mato-grossense e nas regiões de reservas legais.

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