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São Paulo, 22 - O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse hoje que o governo tem tomado as medidas possíveis para aliviar o problema dos cerca de 15 mil produtores rurais do Sul do Brasil, prejudicados pelo clima adverso, e que já formalizaram declaração de sinistro. O que podemos fazer é tornar ágil o pagamento do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) e tentar acelerar o pagamento do seguro privado, afirmou ele, durante entrevista hoje de manhã para o programa Bom Dia Ministro , da estatal Radiobrás.

Conforme Stephanes, o governo também vai prorrogar dívidas e dar novo crédito para o agricultor continuar plantando. "No momento é isso que se pode fazer", comentou. Segundo ele, a estiagem no Paraná deve provocar perda de 30% da safra de soja e de 25% da produção de milho naquele Estado. Na Argentina, a produção de trigo caiu pela metade.

O ministro acrescentou que problemas com o clima no Rio Grande do Sul são recorrentes e podem se repetir nos próximos anos, como efeito das mudanças climáticas. Estudos nesse sentido são conduzidos pelos órgãos federais, os quais mostram necessidade de desenvolvimento de tecnologia para armazenar água em época de abundância, plantas resistentes à seca, entre outros avanços.

Apesar do clima adverso, o aspecto positivo é que os preços agrícolas melhoraram, disse Stephanes. Ele considerou que o momento atual mostra-se favorável à comercialização da safra de grãos. Segundo ele, a produção de soja possivelmente terá comercialização "normal". "A China aumentou a importação, para nossa surpresa, e os preços mostram relativa firmeza". Quanto ao milho, Stephanes disse que o País teve êxito ao exportar excedente estocado e os preços internacionais do cereal estão reagindo. "O mercado de feijão está ótimo, para quem conseguiu produzir. O preço está alto e o consumidor é que reclama", acrescentou.

Preços dos Grãos

O ministro ponderou que o governo está preocupado em sustentar os preços dos grãos durante a comercialização da safra, que ocorre nos próximos meses. De acordo com Stephanes, as tradings realizaram poucas compras antecipadas por causa da crise internacional e os recursos do Banco do Brasil podem não ser suficientes para sustentar os preços. Nesse sentido, o governo pretende injetar cerca de R$ 2 bilhões nas cooperativas, "como capital de giro, para apoiar a comercialização".

Stephanes observou que a crise também impactou a agricultura. A primeira importante consequência foi que as grandes tradings deixaram de realizar compras antecipadas da produção. Os bancos privados contraíram o crédito e dificultaram emprestar para o produtor. Desse modo, mesmo que o governo tenha tomado as decisões de política agrícolas, muitas delas não chegam à ponta produtiva. "Há dificuldade para fazer o crédito chegar ao produtor". O agricultor, por sua vez, reduziu os investimentos. "Diminuímos a aplicação de tecnologia porque tecnologia significa custo, então a produtividade das lavouras deve cair um pouco, entre 2% a 3%, o que não é muito", afirmou o ministro.

Desemprego

Questionado sobre os efeitos da crise no nível de emprego no campo, Stephanes comentou que a atividade rural foi a segunda a apresentar maior número de desempregados no ano passado. Foram 143 mil postos de trabalho perdidos. Numa análise por setor, Stephanes ressaltou que o segmento sucroalcooleiro apresentou perda de 80 mil trabalhadores, ou seja, o desemprego foi concentrado em único setor, principalmente em São Paulo e Minas Gerais. "Os demais setores tiveram perdas 'normais' e estudos são feitos para evitar um agravamento do problema", disse Stephanes. Ele salientou que "se a agricultura vai bem, 4 mil municípios também vão bem", porque o agronegócio está na base da economia dessas cidades.

Stephanes informou que o Brasil exporta produtos agropecuários para mais de 180 países. Em 2008, a receita com exportação atingiu o número recorde de US$ 71,9 bilhões e o saldo da balança comercial alcançou o valor histórico de US$ 60 bilhões. Segundo ele, as exportações do agronegócio são responsáveis pelo superávit de toda balança comercial brasileira, que alcançou cerca de US$ 40 bilhões.

Carnes

Durante a entrevista, o ministro também fez uma avaliação de cada setor de produção de carnes. Ele afirmou que o principal problema está no segmento de suínos, por causa da maior oferta em relação à demanda. "Não sabemos como resolver o problema, o que deixa governo e representantes do setor angustiados", revelou. Os mercados como, Japão e China, são trabalhados, mas resultados não são esperados no curto prazo. "Existe proposta de financiar estoque de carne congelada, em grandes empresas", revelou.

Quanto ao mercado de carne de frango, Stephanes disse que o preço do produto está em limite de baixa. "Mas há acordo para diminuir a produção de 10% a 20%, para evitar excedentes de oferta". Além disso, "recebemos missão técnica das Filipinas nesta semana e eles possivelmente vão abrir mercado para o frango brasileiro". "A China deve mandar missão para o Brasil nos próximos 30 a 60 dias e já estamos na fase de credenciamento de abatedouros aptos à exportação", ressaltou.

Com relação ao mercado de carne bovina, o ministro ponderou que "não devemos ter maiores problemas". "As dificuldades serão suportáveis, até passar a crise". Conforme Stephanes, o País pode elevar os embarques, que hoje vão para cerca de 150 países. "A restrição de mercado provocada pela crise não deve durar mais de um ano, o que é suportável", previu ele. O ministro acrescentou que o País tem procurado abrir novos mercados. O mercado da União Europeia (UE) pode ser reconquistado. "Estamos nos adaptando às regras do bloco". "Acreditamos que a auditoria da UE, que está no Brasil, nos será favorável". "O Brasil poderá voltar à condição de grande exportador para UE", avaliou.

Algodão e Café

Segundo Stephanes, além do segmento de produção de suínos, outras duas áreas são motivo de grande preocupação: algodão e café. No caso do algodão, o problema se concentra na Bahia e Mato Grosso do Sul. Como o cultivo é anual, a expectativa é que o consumo mundial retome no ano que vem, aliviando os prejuízos.

"O café preocupa mais", observou. Segundo ele, os preços do produto estão há cerca de seis anos sem alteração e 360 mil propriedades e dois milhões de trabalhadores dependem da atividade. Stephanes disse que a cafeicultura é o sétimo setor, em termos de número de demissões, totalizando perda de cerca de 4 mil trabalhadores no ano passado.

Medidas

O ministro comentou que algumas soluções deverão ser anunciadas nas próximas semanas, para atenuar as perdas dos produtores. Cinco medidas estariam decididas. Outras não chegaram a um consenso entre o Ministério da Agricultura e a áreas econômica do governo. Stephanes relatou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião realizada ontem, tomou conhecimento das decisões e "convocou uma reunião para a próxima semana".

Stephanes informou que este ano já foram realizadas três reuniões ministeriais, além de oito a nove reuniões entre técnicos do governo, "para ver o que é possível fazer na cafeicultura". De acordo com ele, o problema do café "é estrutural". "O desequilíbrio não é momentâneo, provocado pela crise, vem de alguns anos". Segundo ele, o custo operacional de produção, sem depreciação, seria de R$ 270/R$ 280 a saca de 60 quilos, "embora o produtor considere que seja maior". O valor da saca no mercado estaria entre R$ 250/R$ 260 a saca.