Sob o pretexto da crise financeira e das perspectivas negativas para o Brasil, bancos embolsaram parte da queda do custo de captação de recursos e, pela sexta vez seguida, elevaram o spread cobrado nas operações de crédito. Isso anulou completamente as medidas adotadas pelo governo para baratear os empréstimos, como a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e dos depósitos compulsórios e a queda da taxa básica de juros (Selic).

De acordo com dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC), o spread médio do sistema financeiro foi de 30,6 pontos porcentuais em dezembro, o mais alto desde agosto de 2003. Em novembro, estava em 30,1 pontos.

O spread é a diferença entre a taxa de captação dos bancos e o quanto as instituições cobram para emprestar os recursos aos seus clientes. Esse indicador está na mira do governo e foi diretamente criticado pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, embora a entidade ainda não tenha tomado nenhuma atitude mais dura para forçar as instituições a reduzi-los.

Dados do BC mostram que o custo de captação caiu de 13,9% ao ano em novembro para 12,6% em dezembro. Mas a queda não foi repassada integralmente aos clientes porque a margem de lucro do banco aumentou. Entre os dois meses, o juro médio cobrado pelos bancos caiu de 44% para 43,2% ao ano. Se a queda fosse repassada integralmente, os juros finais cairiam para 42,7% ao ano. Em um empréstimo de R$ 10 mil por um ano, essa taxa significaria uma economia de R$ 50.

A alta no spread bancário se deu essencialmente nas operações de pessoa física. Em novembro, o indicador estava em 43,1 pontos e, em dezembro, fechou em 45,1 pontos, o mais alto desde setembro de 2004. A taxa de captação dos bancos nas operações com pessoa física caiu 2,2 pontos, mas os juros cobrados das famílias baixou apenas 0,2 ponto na média, para 58% ao ano. Com isso, os bancos embolsaram 2 pontos porcentuais da queda no custo de captação. Em um empréstimo de R$ 10 mil por um ano, essa diferença significa R$ 200.

A alta no spread para pessoa física é generalizada. O movimento mais forte ocorreu na aquisição de bens - exceto veículos -, cujo spread subiu de 52,9 para 60,9 pontos porcentuais. No cheque especial, a alta foi mais fraca, embora suficiente para ficar no maior nível da série: 162,5 pontos. Nas operações com as empresas, o menor custo de captação de dezembro foi integralmente repassado nos financiamentos. Dessa forma, o spread permaneceu em 18,3 pontos porcentuais, ainda o mais alto da série do BC.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, afirmou que a alta vem do temor do aumento de calotes por conta da crise externa. "As instituições estão se colocando no mercado de forma conservadora, com temor diante do risco de inadimplência."

A divulgação pelo BC de dados que mostram um aumento do spread acirrou ainda mais a queda-de-braço entre o governo e os bancos privados. Como contraponto aos dados oficiais, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), estrategicamente, resolveu divulgar hoje balanço que mostra o spread efetivo em nível mais baixo que o apontado pelo BC.

Na prática, a decisão da Febraban é vista dentro do governo como um questionamento público da metodologia do BC. O governo, por sua vez, ameaça com uma intervenção maior do Estado no setor, com o uso dos bancos públicos.

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