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Serra enfrenta maior crise policial de São Paulo

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), foi atingido ontem pela mais grave crise policial em São Paulo nas últimas décadas. Uma manifestação dos policiais civis, em greve há 31 dias, degenerou em conflito com a Polícia Militar, no acesso ao Palácio dos Bandeirantes, no bairro do Morumbi (zona sul da cidade), exatamente defronte à entrada do Hospital Einstein.

Valor Online |

Houve uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e até disparos com munição real. Serra responsabilizou o PT, a CUT, a Força Sindical e o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), líder da Força, de quererem manipular os manifestantes para tirar proveito eleitoral. A oposição ao governo estadual reagiu acusando o governador de usar a disputa política para transferir responsabilidades. E a greve continuará hoje.

Até o início da noite, o balanço oficial mostrava 12 feridos: dez policiais civis e um cinegrafista, sem gravidade, e um coronel da Polícia Militar, atingido no abdômen por uma bala de pistola 9 mm . Mas só no Hospital Albert Einstein foram atendidas pelo menos 13 pessoas. Entre elas o coronel, em relação a quem o hospital não confirmava o ferimento com arma de fogo. No Hospital São Luiz, foram atendidos cinco feridos. Outros cinco atingidos teriam sido levados para o Hospital Itacolomi.

Segundo declarou Serra em entrevista à TV Bandeirantes, havia a intenção dos supostos fomentadores de "manipular a segurança da população para tirar proveito eleitoral", já que todos os citados apóiam Marta Suplicy (PT) à Prefeitura de São Paulo.

A tese da motivação eleitoral para a manifestação também circulou na coordenação de campanha pela reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Foi citado um evento anterior, que teria influenciado a eleição municipal em 1988. Na ocasião, grevistas da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), então uma empresa estatal, entraram em conflito com o Exército, em Volta Redonda (RJ). Morreram na ocasião três operários. Seis dias depois, os candidatos do PT e do PDT conseguiram vitórias surpreendentes, inclusive em São Paulo, onde Luiza Erundina, então petista e em terceiro lugar nas pesquisas, foi eleita. Foi insistentemente lembrado que Paulinho, em uma manifestação no vão livre do Masp, teria mencionado as eleições. Na atual disputa eleitoral, Marta está em segundo lugar, com grande desvantagem em relação a Kassab.

Os manifestantes procuraram negar o vínculo político. O delegado da polícia civil Marcos Gama, da Associação dos Delegados, disse que nenhum dos sindicatos ou associações de policiais civis é filiado a qualquer central sindical e que um delegado da Polícia Civil ganha quatro vezes menos que um promotor. Garantiu que o movimento não é político mas estava com uma blusa branca escrito Marta em vermelho, que usava em volta do pescoço, como se fosse um lenço. "Alguém me deu", disse, sorrindo, "pois estava começando a chover e a esfriar". Diretor da associação, André Dahmer, reforçou que a maioria dos policiais não é filiada a nenhuma central sindical. "É lamentável a atitude do governador. Age de forma ditatorial."
João Rebouças, do Sindicato dos Investigadores, disse que os policiais tentam negociar há dez meses. Comentou que em todo este tempo o governo Serra nunca havia dito que o movimento tinha conotação política. O investigador mencionou que, ao entrar na corporação, há 40 anos, ganhava como um tenente da PM. Agora, aposentado, ganha como um soldado. Reconheceu que os manifestantes, em grande parte - cerca de 3 mil - estavam armados, mas disse que esta é a obrigação do policial. A Polícia Civil diz que o primeiro tiro foi dado pela PM. "Não fosse o senso de responsabilidade da melhor e mais mal paga polícia do Brasil teria havido um morticínio", disse Marcos Gama.

De acordo com uma fonte com livre acesso a Serra, dirigentes da Força Sindical buscaram ontem abrir uma negociação com o governador. Serra teria mandado o recado que só voltará a negociar depois da realização do segundo turno, e com a cessação do movimento, que já dura 31 dias.

Os acusados pelo governador reagiram com dureza. "O governador é recorrente neste expediente de transferir responsabilidades. Ele já responsabilizou a CUT até por incêndio no Hospital das Clínicas", afirmou o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP), coordenador de agenda de Marta. Simão Pedro afirmou que os responsáveis pelo movimento na Polícia Civil tentaram há 20 dias envolver a candidata petista na questão. "Alguns representantes da associação dos delegados, dos investigadores e dos escrivães entraram em contato comigo porque queriam levar a Marta ao encontro deles. Disse que isto seria prejudicial ao movimento", afirmou ao parlamentar, para quem "a candidata envolver-se neste processo seria dar uma canja para que eles nos atacassem".

Na tarde de ontem, os coordenadores da campanha de Marta debateram como tratar o episódio. Concluíram que a candidata será mantida longe da polêmica. A resposta ao governador seria dada pelo PT e pelas centrais sindicais citadas. Não estava descartado o pedido de direito de resposta, em nome do partido, a todos os meios de comunicação que entrevistaram o governador ontem sobre o tema.

"Serra está querendo politizar e desviar o foco da manifestação. A maioria dos policiais não pertence a nenhum partido político", disse o líder do PT na Assembléia, Roberto Felício, que estava na manifestação. Também estavam no ato os deputados estaduais Carlos Giannazi (P-SOL) e Major Olímpio (PV). O último é da base de governo de Serra e de Kassab. Felício afirmou que foi à manifestação para tentar mediar um encontro com o secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira.

Em entrevista, Paulinho também respondeu de forma dura. "É um irresponsável este governador", afirmou o deputado, que participou da manifestação. "O governador lamentavelmente não colocou ninguém para conversar com a categoria. Em vez disso mandou uma polícia brigar com polícia. Faz 14 anos que não há aumento salarial", afirmou.

Segundo os organizadores do movimento, desde fevereiro há a tentativa de uma negociação direta com Serra. Os policiais civis pedem 15% de reajuste salarial em 2008 e 12% para 2009 e 2010. Alegam que a remuneração na Polícia Civil de São Paulo é a pior do Brasil. O governo paulista ofereceu 6%. Na entrevista à televisão ontem, Serra disse que "a proposta do governo está no limite e dinheiro não dá em árvore". Segundo Serra, "a proposta do governo é boa", ressaltando que o governo nunca se fechou a negociações.

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública, aumentos reais no salário-base estão travados desde 1993 em função da lei estadual que fez a equiparação salarial entre Polícia Militar e Polícia Civil. Desde então, a recomposição salarial é feita com aumentos nas gratificações, que não são incorporadas no momento da aposentadoria. A secretaria afirma que hoje há uma previsão orçamentária de R$ 7 bilhões para pagamento dos 130 mil policiais civis e militares. Com o aumento de 6% e uma nova estrutura de gratificações, o governo estadual afirma que dispenderá mais R$ 650 milhões. A proposta dos grevistas, segundo a secretaria, representaria R$ 3 bilhões.

O confronto de ontem começou inicialmente entre policiais civis. Dois grupos de elite da corporação, o Grupo de Operações Especiais (GOE) e o Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) bloquearam o acesso ao Palácio com viaturas para impedir a marcha. A primeira barreira foi transposta. Entraram então em cena duas outras barreiras, uma feita pelo Batalhão de Choque e outra pela Cavalaria da Polícia Militar.

Às 15h15, as lideranças anunciaram aos manifestantes que o governo havia concordado em receber uma comissão dos grevistas. Isso, porém, não acalmou os policiais, que continuaram a caminhada. Um grupo de representantes dos policiais civis tentou avançar rumo ao Palácio, mas foi impedido pelos PMs, que fizeram um cordão de isolamento. Cerca de 2 mil policiais civis, segundo estimativas do movimento, participavam do protesto em direção ao Palácio. (Paulo Totti, Cristiane Agostine e César Felício | Valor Econômico. Colaborou Caio Junqueira)

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