Tamanho do texto

A rejeição do pacote de resgate do sistema financeiro americano pela Câmara dos Representantes deixou investidores do mundo todo sem chão. A falta de perspectiva de solução para os graves problemas provocou a saída em massa das aplicações de risco, como ações, em direção aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados os mais seguros do mundo.

Com isso, os principais termômetros do mercado acionário global tiveram pesadas perdas.

O Índice Dow Jones, o mais importante da Bolsa de Nova York, recuou 6,98%. Em pontuação, a queda de ontem foi a maior nos quase 80 anos de história do indicador no formato atual: 777 pontos. A bolsa eletrônica Nasdaq teve baixa de 9,14%. O valor de mercado conjunto das companhias com papéis negociados na Bolsa de Nova York caiu em US$ 1,2 trilhão.

No Brasil, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) despencou 9,36%, para 46.028 pontos. Segundo a empresa de informações financeiras Economática, o valor de mercado da Bovespa recuou de R$ 1,701 trilhão na sexta-feira para R$ 1,550 trilhão ontem. O levantamento considerou apenas as 275 ações que foram negociadas no pregão de ontem.

Pela primeira vez desde 14 de janeiro de 1999, a bolsa brasileira acionou um mecanismo chamado circuit breaker. Trata-se de um instrumento que interrompe o pregão por meia hora no caso de uma desvalorização do índice superior a 10%. As bolsas asiáticas seguiram a tendência e abriram a terça-feira com quedas de quase 5% em Tóquio e Seul.

Na ponta contrária, o nervosismo fez os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano recuarem fortemente - como resultado do aumento da procura. A taxa do bônus de dois anos saiu de 2,13% para 1,67%. No papel de 30 anos, a queda foi de 4,38% para 4,12%. Nas mesas de operações, analistas e economistas estavam atônitos com a recusa dos parlamentares em aprovar o pacote de US$ 700 bilhões proposto pelo governo George W. Bush. "Com o plano, o recado para as instituições com problema era: Vá ao Tesouro. Agora, quem estiver com dificuldades vai para o brejo", disse o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "A probabilidade de que uma onda de calotes em fundos e outras entidades atinja os bancos comerciais me apavora."

Segundo ele, o pacote do Tesouro dos EUA oferecia a possibilidade de uma solução "organizada" para a crise. "Agora é cada um por si", afirmou. Na avaliação dos especialistas, a mudança fundamental em decorrência do veto ao plano diz respeito justamente a esse ponto. "Alguma saída será encontrada pelos bancos centrais, mas será um processo mais desgastante, com mais volatilidade", explicou o professor do Ibmec São Paulo Alexandre Chaia.

Segundo ele, a recusa dos deputados em aprovar o plano do secretário Henry Paulson mostra que o governo Bush terá de trabalhar dentro dos limites impostos pela legislação atual. Ou seja, para o professor, o modelo usado para salvar instituições como a seguradora American International Group (AIG) poderá ser replicado em outros casos que venham a aparecer.

Essas incertezas, explicou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, tiram a confiança dos bancos. "Fidúcia é a base do sistema", disse. A desconfiança faz com que os bancos não emprestem uns para os outros - daí a crise ter atingido em cheio o mercado de crédito. "Ninguém empresta para ninguém porque não sabe se vai receber de volta", definiu um analista de um banco estrangeiro que pediu para não ser identificado.

É por isso que vários bancos centrais têm colocado à disposição do mercado bilhões e bilhões de dólares, euros e libras diariamente. Ontem, por exemplo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ampliou a liquidez para os mercados monetários globais. O volume de recursos disponíveis para esse tipo de operação saltou de US$ 330 bilhões para US$ 620 bilhões.

O temor dos especialistas, agora, é de que a falta de confiança no sistema leve a uma corrida bancária, o que, por sua vez, poderia provocar uma quebra em série de instituições. "Na realidade, isso já ocorreu no caso do Washington Mutual", lembrou o economista do banco estrangeiro.

O WaMu, como é conhecido, foi vendido na semana passada para o JP Morgan depois de ser liquidado pelas autoridades americanas - foi a maior falência de um banco na história do país. A instituição era a maior na área de poupança. "Em poucos dias, o banco perdeu US$ 16 bilhões em depósitos", disse.

Para os analistas, a perspectiva para os próximos dias não é das melhores. Nem mesmo um possível "plano B" anima. "Não há muito o que esperar de um governo que sofreu uma derrota dessas", sintetizou Rosa.