Com o fracasso das negociações na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo brasileiro confirma que vai partir em busca de acordos comerciais bilaterais e não descarta a retomada do diálogo entre o Mercosul e os Estados Unidos. Outra prioridade será a União Européia (UE).

Mas Bruxelas alerta que os problemas na rodada não vão desaparecer e, portanto, também prevê um processo difícil.

"A OMC era a prioridade, pois somente aqui é que poderíamos tratar de subsídios. Mas agora vamos ter de nos concentrar em coisas que dão resultados. Não posso ficar pendurado aqui por mais quatro anos", afirmou o chanceler Celso Amorim. Perguntado como veria a OMC a partir de agora, o ministro foi direto: "de longe".

Para muitos ontem em Genebra, o fracasso da rodada põe em risco credibilidade da OMC como o centro das negociações internacionais. Países em diversos cantos do mundo vão buscar soluções bilaterais e os acordo regionais devem proliferar.

"Eu sempre disse que o processo com a UE recomeçaria", disse Amorim. Ele reconhece que o processo terá de partir de uma nova base. Mas a comissária de Agricultura da Europa, Marianne Fischer Boel, alerta que os problemas continuarão. "O que foi problemático aqui também será entre o Mercosul e a UE", disse.

Sobre um acordo com os Estados Unidos, Amorim deixa claro que o modelo da Alca não poderá ser repetido. Mas admite conversar. "Vamos ver com o Mercosul", disse Amorim. "Não excluo essa possibilidade, mas não como vinha sendo proposto, com leis de patentes e investimentos. Não será fácil, mas, se houver uma tentativa realista, porque não?"

No Brasil, a Fiesp já tem uma agenda de acordo que gostaria de ver negociado, enquanto África do Sul, asiáticos e latino-americanos devem buscar o mesmo caminho. Já a França alerta que também bloqueará essas iniciativas se elas signifiquem a abertura de seus setores agrícolas.

Indústria pede ação

"Não podemos mais apenas reagir ao cenário internacional. Precisamos ser ativos e buscar acordos", afirmou Mario Marconini, diretor de Relações Internacionais da Fiesp. Em sua agenda está a retomada de um acordo com a Europa, além de maiores acessos aos próprios mercados vizinhos, entre eles Peru e Colômbia.

Na Confederação Nacional da Indústria (CNA), a pressão é para que o governo passe a buscar acordos e retomar as negociações entre o Mercosul e os europeus. O processo foi interrompido em 2004, depois que as duas regiões não conseguiram se entender sobre o preço que os sul-americanos precisariam pagar pelas concessões no setor agrícola da UE.

Desde então, a esperança era de que a Rodada Doha fosse concluída e, a partir daí, uma base fosse criada para o entendimento regional. Mas, com o fracasso de ontem, tanto o Mercosul como a UE terão de repensar sobre que bases negociarão.

"Vamos ter de recomeçar do zero todas nossas negociações, já que as bases são outras", afirmou Nestor Stancanelli, negociador-chefe da Argentina. Para ele, nenhum acordo vai conseguir ser concluído antes do final de 2009. "Haverá um congelamento da situação internacional", afirmou.

O embaixador da França na OMC, Phillip Gros, também alertou que o fracasso de Doha não significa que os acordos bilaterais serão fáceis. "Nos países democráticos, os governos precisam levar em consideração a opinião pública. Hoje, essa opinião pública pressiona por certas medidas protecionistas e precisamos respeitá-las, se um governo pretende representar a população", afirmou. Os franceses estão entre os mais protecionistas em toda a Europa e recebem metade dos subsídios dados pela UE por ano.

O secretário de Comércio da África do Sul, Rob Davies, também informou que a busca por entendimentos comerciais bilaterais será o foco de sua agenda a partir de agora. "Vamos precisar consolidar nossas relações com outros países emergentes por meio de acordos. Isso será fundamental nos próximos anos", afirmou Davies.

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