Líderes das associações ruralistas anunciaram ontem que recorreriam à Corte Suprema de Justiça se o Senado aprovasse o projeto de lei da presidente Cristina Kirchner que determina um elevado aumento dos impostos das exportações agrícolas. O Senado avaliava ontem o polêmico projeto em meio a intensos debates entre os parlamentares.

A votação deveria ocorrer tarde da noite de ontem ou na madrugada de hoje. Versões divulgadas pela mídia argentina, indicavam que o governo, que tem maioria no Senado, contaria com os votos necessários para aprovar o projeto depois que um senador, que ainda estava indeciso, revelou que dará seu apoio à iniciativa.

No entanto, depois de horas de discussões, pelo menos quatro senadores indicaram que poderiam optar pela abstenção. O projeto de Cristina necessitava de 37 votos dos 72 membros do Senado para ser aprovado.

Nos últimos dias, foram feitas várias denúncias de que o governo teria comprado votos dos senadores em troca de cargos e fundos especiais para as províncias.

Eduardo Buzzi, líder da Federação Agrária, disse que se forem derrotados os ruralistas recorrerão à Corte Suprema, argumentando que o aumento de impostos de Cristina é "inconstitucional", pois vai muito além dos tributos normais (que possuem um teto de 35%) e podem ser considerados como "confiscos". Segundo o projeto, os impostos podem passar de 45%. Os ruralistas também prometem continuar com as manifestações contra a presidente até obter a anulação do aumento dos impostos para o setor.

Moradores de Buenos Aires e cidades do interior organizaram ontem panelaços contra o projeto do governo. Na capital, os protestos ocorreram nos bairros de classe média e alta, cujos moradores também promoveram um buzinaço contra a iniciativa de Cristina. Em algumas esquinas do bairro de Palermo, onde ruralistas de várias províncias acompanhavam o debate no Senado em um telão, grupos de pessoas fecharam as ruas.

Uma pesquisa publicada pelo jornal Clarín indicou que 88,7% dos entrevistados consideram que, independentemente da votação no Senado, a crise com os ruralistas não será resolvida. Segundo o analista político Rosendo Fraga, "se o governo vencer, manterá sua situação, mas, mesmo assim, o conflito com o setor agropecuário continuará". Caso o governo seja derrotado, o conflito será outro, provocado pelos efeitos da derrota dentro do peronismo, acrescentou Fraga.

O casal Kirchner está perdendo o apoio de deputados, senadores e governadores peronistas. E a crise com os ruralistas também provocou divisões entre Cristina e seu marido, Néstor Kirchner, que se acusam pelos problemas do governo.

Setores dissidentes do Partido Justicialista (peronista) já falam em pós-kirchnerismo. Esses grupos foram fortalecidos com o desgaste do governo.

Os grupos dissidentes querem ampliar seu poder nas eleições parlamentares de 2009, que serviriam como trampolim para as presidenciais de 2015. A idéia original dos peronistas era tentar reeleger Cristina e apresentar Kirchner como candidato em 2015.

Mas os analistas destacam que se o poder dos Kirchners continuar se esvaindo, o casal - a mais de três anos do fim do mandato de Cristina - terá de negociar a sucessão com os setores dissidentes peronistas para evitar, no futuro, o risco de serem investigados pelos casos de corrupção.

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