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Revolta na Líbia ameaça abastecimento mundial de petróleo

Ainda não se trata de um choque ao abastecimento do petróleo. Ainda.

The New York Times |

Mas os acontecimentos no mundo árabe, o epicentro da produção mundial de petróleo, são um lembrete de que o comércio de petróleo, a principal de todos as commodities, está no centro de um jogo político. Desde que o Iraque invadiu o Kuwait em 1990 a política do petróleo não parecia tão relevante. Como grande parte do mundo árabe, este mercado parece pronto a explodir no ar.

Conforme os rebeldes intensificavam seus cerco ao redor de Trípoli, no domingo, o fornecimento de petróleo permanecia restrito. A produção da maioria dos campos de petróleo da Líbia baixou para quase zero. Vários portos e refinarias foram abandonados por trabalhadores com medo. E com a maioria dos funcionários das empresas estrangeiras de petróleo deixando o país, homens armados começam a pilhar equipamentos deixados para trás e a retomada da produção normal parece, na melhor das hipóteses, distante.

Cerca de 80% da produção nacional de petróleo encontra-se em território controlado pelos rebeldes, embora não haja uma forma de verificar quanto os líderes rebeldes controlam.

Moises Saman/The New York Times
Soldados líbios que se juntaram à oposição contra o coronel Muamar Kadafi, em Zawiya, Líbia, 27 de fevereiro
Certamente o mundo pode enfrentar uma interrupção das exportações da Líbia. Mas o que causou o aumento do preço do barril a US$ 100 novamente – e deixou as pessoas preocupadas – é a possibilidade de que as insurreições que derrubaram os autocratas no Egito e na Tunísia possam se espalhar para outras nações da OPEP no Oriente Médio.

Até o momento, pesos pesados como a Arábia Saudita podem fazer a diferença e grandes consumidores, como os Estados Unidos, armazenam milhões de barris de petróleo para este tipo de emergência.

Mas alguns especialistas em petróleo estão surpresos que a agitação tenha atingido o mercado desse jeito. O mundo está sedento por petróleo, e a oferta e demanda estão em equilíbrio delicado. Há pouco espaço para mais rupturas no abastecimento.

Na verdade, a capacidade ociosa – essencialmente a quantidade de petróleo extra que os membros da OPEP são capazes de produzir rapidamente – é agora de cerca de cinco milhões de barris por dia. Isso representa cerca de 6% do petróleo que o mundo consome todos os dias. Essa quantidade é maior do que em 2008, quando equivalia a cerca de 2% do consumo diário, mas continua a ser preocupante. E isso não inclui a perda dos cerca de 1 milhão de barris diários exportados da Líbia.

"Há vulnerabilidade para a tensão", disse David Knapp, economista energético sênior da Energy Intelligence, uma editora especializada. "Mas, por enquanto, existem bastante barris lá fora, no armazenamento comercial e na capacidade de produção da OPEP e das reservas estratégicas mantidas pelos países industrializados para lidar com uma interrupção de fornecimento de duração média".

A questão na mente de todos é o que acontecerá se isso se espalhar para além da Líbia. Costanza Jacazio, analista de energia do Barclays Capital em Nova York, diz que mais protestos – ou simplesmente o medo de novos distúrbios – poderiam impulsionar os preços do petróleo. "O grau de risco geopolítico atual é enorme".

Jan Stuart, economista de energia da Macquarie Securities, explicou: "Isso nos traz de volta a dimensão política da dinâmica dos preços do petróleo. Durante a maior parte dos últimos 25 anos, os sauditas têm atuado para impedir que a política fizesse parte das discussões sobre o abastecimento de petróleo. O risco hoje é que podemos voltar a ver exatamente isso acontecer”.

O preço do petróleo vinha aumentando mesmo antes da onda de protestos pró-democracia tomar conta do Oriente Médio e Norte da África. A recuperação da economia mundial havia convencido os comerciantes de que a demanda por petróleo iria subir cerca de 2% em 2011. Alguns especialistas da indústria e gurus de Wall Street previam uma marcha gradual aos US$ 120 e até US$150 o barril. A ideia era que os investidores despejassem dinheiro nos mercados de commodities.

Os futuros sobre o petróleo em Nova York aumentaram quase US$12 na semana passada, chegando a US$ 97,88 o barril, seu valor mais elevado desde outubro de 2008. Em Londres, o Brent de referência foi negociado a cerca de US$ 115 o barril.

Agora os economistas temem que os preços elevados da energia possam prejudicar a economia no momento em que ela começa a se recuperar. O preço da gasolina estava cerca de US$ 3,29 dólares o galão na sexta-feira, um aumento em relação aos US$3,11 de um mês atrás. Como regra, cada aumento de 1 centavo tira mais de US$ 1 bilhões dos bolsos dos consumidores por ano.

Se os preços continuarem subindo, os consumidores podem ter que apertar o cinto. Se os preços permanecerem altos por muito tempo, o impacto pode ser severo: cada choque ao abastecimento do petróleo nos últimos 40 anos ajudou a colocar a economia mundial em recessão. Nariman Behravesh, economista sênior do IHS Global Insight, disse que cada aumento de US$10 dólares no preço do barril de petróleo reduz o crescimento econômico em dois décimos de ponto percentual após um ano e um ponto percentual ao longo de dois anos.

Lynsey Addario/The New York Times
Rebeldes em Benghazi, na Líbia: 80% da produção de petróleo está em território controlado por eles
De certa forma, algo como isto estava prestes a acontecer. Este não é um evento "cisne negro" – uma ocorrência súbita e inesperada – mas um cisne branco, disse Michael A. Levi, pesquisador sênior para energia e meio ambiente no Conselho de Relações Externas.

"Você não pode prever que complicações específicas irão acontecer, mas você pode ter certeza que vai haver alguma complicação", disse ele.

Para acalmar os mercados, a Arábia Saudita começou a aumentar sua produção de petróleo para mais de 9 milhões de barris por dia, cerca de 700 mil barris a mais que no final de 2010, segundo a Energy Intelligence. Autoridades sauditas também estão perguntando às refinadoras europeias, que estão sendo mais diretamente afetadas pela queda das exportações líbias, quanto e que tipos de petróleo elas necessitam para envio rápido.

E a Agência Internacional de Energia, uma organização de países consumidores, também ajudou a acalmar as tensões nos mercados quando afirmou na quinta-feira que o mundo tem "as ferramentas na mão para entregar petróleo suficiente para o mercado", incluindo a disponibilidade de estoques de emergência mantidos por nações consumidoras.

Muito agora depende do que acontecerá a seguir no Oriente Médio. A alta dos preços que acompanharam as duas guerras do Golfo Pérsico não tiveram impacto profundo por que não duraram muito tempo. Mas vários aumentos de preços do petróleo têm precedido as crises econômicas.

O maior choque no abastecimento aconteceu depois do embargo da OPEP, entre 1973 e 1974, que quadruplicou os preços do petróleo e ajudou a produzir estagflação, um período de crescimento lento, desemprego elevado e inflação.

A revolução iraniana de 1979 causou outro choque, e novamente os motoristas americanos foram obrigados a esperar em longas filas para comprar gasolina. Os preços do petróleo dispararam, mas eles não permaneceram elevados por muito tempo, conforme México, Nigéria e Venezuela expandiram sua produção e a OPEP perdeu o seu monopólio. Os preços do petróleo se mantiveram baixos durante anos e a economia durante a segunda metade da década de 1980 e a maioria da década de 1990 esteve, em geral, forte.

Se a atual situação ajudar a aumentar o preço do barril em US$ 40 e US$ 50, chegando ao preço de há três anos, isso realmente seira ruim.

"Se os preços da gasolina chegaram a mais de US$ 4 o galão, pode haver um grande efeito psicológico", disse Behravesh, "e isso pode durar”.

* Por Jad Mouawad e Clifford Krauss
 

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