O quadro de demanda fraca e crédito raro deve prevalecer para as empresas brasileiras em 2009, levando-se em conta a avaliação generalizada de que a economia mundial deve sair da recessão no segundo semestre, com mais certeza nos últimos três meses do ano. O banco JP Morgan acredita que a expansão da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) ficará estável na média destes 12 meses ante uma previsão de crescimento perto de 15% em 2008.

De acordo com o banco WestLB, a FBCF deve desacelerar de um incremento próximo a 13% em 2008 para um patamar ao redor de 4%. Para 2010, as expectativas dos especialistas apontam para uma melhora expressiva, variando de uma alta de 5%, segundo a MB Associados, para uma elevação de 10,8%, segundo a LCA.

Na avaliação do economista do JP Morgan, Júlio Callegari, os investimentos normalmente caem quando há uma desaceleração expressiva do Produto Interno Bruto (PIB). Para ele, a crise levará o País a registrar uma retração de 1,3% no último trimestre de 2008 ante o anterior e mais uma queda de 0,6% nos três primeiros meses deste ano em relação ao registrado entre outubro e dezembro passados.

Assim, a economia deve desaquecer de forma abrupta, pois deve ter avançado 5,5% no ano passado, mas deve crescer somente 1,5% em 2009. "Num ambiente marcado pelas expectativas desfavoráveis de empresários e consumidores para o nível de atividade, ocorrerá uma retração forte da Formação Bruta de Capital Fixo no primeiro semestre", afirmou Callegari. "O mundo deve começar a se recuperar a partir da segunda metade deste ano, mas a melhora será gradual e não deve permitir que a FBCF avance neste ano."

Os investimentos produtivos devem registrar queda de 10,9% no quarto trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior, prevê o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Se isso for confirmado, será a maior queda desde 1996. Para ele, as dificuldades de acesso ao crédito pelas empresas devem perdurar até o terceiro trimestre deste ano, quando os países desenvolvidos estarão mais próximos do fim da recessão que enfrentam e os bancos internacionais terão também informações mais detalhadas sobre a qualidade de seus ativos e poderão voltar a emprestar aos poucos. A melhora do humor no mercado deve estimular as instituições nacionais a emprestar, o que ajudará a retomar os investimentos.

E é no terceiro trimestre que as empresas realizam o planejamento estratégico para o ano seguinte, o que deve movimentar seus caixas para a continuidade de projetos que foram temporariamente adiados pela crise. "O consumo das famílias deve ganhar maior fôlego no quarto trimestre, pois o Natal deve ser melhor do que o do ano passado", afirmou. O economista-chefe da MB acredita que a FBCF deverá registrar um incremento de apenas 1,3% em 2009, marca distante da alta de 13,3% que ele estima para 2008. Para o ano que vem, os investimentos devem subir 5%, taxa puxada pela retomada do PIB, que deve avançar de 2% neste ano para 3,8% no próximo.

Fator BNDES é positivo

Na avaliação do estrategista do banco WestLB, Roberto Padovani, a desaceleração da Formação Bruta de Capital Fixo de uma elevação prevista em 2008 de 13% para 4% em 2009 não é um resultado desastroso, pois a economia mundial registra uma forte retração, provocada pela crise de confiança atingindo bancos e investidores junto com a demanda em queda acentuada. Ele ressalta que as dificuldades de crédito são muito sérias, mas os bancos no Brasil não estão parados, com destaque para o BNDES. "O primeiro semestre será difícil, com o pico da queda da produção industrial ocorrendo até o final de março, pois os estoques das empresas vão levar um bom tempo para diminuírem bem", comentou.

Para Padovani, entre abril e junho ocorrerá o pico dos efeitos da crise sobre o comércio, que sofre as consequências de turbulências pouco depois da indústria. Será um período que marcará a alta do desemprego. Contudo, ele destaca que este cenário começará a reverter no segundo semestre, pois a distensão da política monetária e a política fiscal expansionista não deixarão o País mergulhar numa recessão.

"A confiança dos agentes econômicos vai ser resgatada de forma paulatina e com isso o consumo deve melhorar, o que deve ampliar a concessão de crédito e revigorar os investimentos no final deste ano", afirmou. Na sua avaliação, como a economia vai acelerar e subir de 2% neste ano para um nível próximo a 3,5% em 2010, ele espera que a FBCF aumente de 5% a 10% no ano que vem.

Financiamentos

Com o surgimento da crise, subiu a demanda de financiamentos junto ao BNDES pelas empresas no Brasil. O superintendente da área de Pesquisa Econômica da instituição, Ernani Torres, estima que as aprovações de projetos envolveram o montante próximo a R$ 44 bilhões no último trimestre de 2008, perto de 10% acima dos R$ 40 bilhões registrados no mesmo período de 2007.

No ano passado, o orçamento da instituição atingiu R$ 90 bilhões, mas de acordo com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, há condições de atender financiamentos em até R$ 110 bilhões. "Do total de crédito concedido no País, o BNDES foi responsável por 16% em setembro, patamar que subiu para 17% em dezembro. É possível que tal participação suba para 19% ao final deste ano", comentou Torres. Ele estima que a FBCF deve subir 6% em 2009 e avançar de 8% a 9% em 2010.

O professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ) Ricardo Antunes ressalta que a recuperação dos investimentos requer também uma ação mais firme do governo para que os bancos reduzam os spreads dos financiamentos as empresas e famílias, dado que a FBCF só avança se há aumento da demanda. "Não faz sentido que os juros do cheque especial e do cartão de crédito alcancem 9% ao mês. Se a taxa ficar em 3%, já representará um lucro de 200% sobre a taxa básica, que está em 1% no período (12,75% ao ano)", frisou.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.