A economia brasileira superou todas as expectativas e, empurrada pelo consumo das famílias e por investimentos públicos e privados, levou o Produto Interno Bruto (PIB) ao seu melhor desempenho trimestral em quatro anos: 6,8% no terceiro trimestre, em comparação a igual período do ano passado, segundo apurou o IBGE. Vigor que, segundo os economistas ouvidos pelo Estado, ajuda o País a enfrentar um período ainda indefinido de forte declínio, mas não é suficiente para afastar o risco de recessão.

Para o quarto trimestre, as expectativas são de crescimento próximo de zero, ou seja, de elevação inexpressiva ou de ligeira queda. "O terceiro trimestre já ficou para trás. E, definitivamente, pode ser o último de crescimento forte do governo Lula", atesta o economista José Julio Sena, contrariando previsões do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Amparado principalmente na elevação dos investimentos, o ministro considerou inevitável o recuo no quarto trimestre e no ano que vem, mas disse esperar, uma retomada de crescimento forte a partir de 2010.

Em 12 meses, até setembro, o PIB (conjunto de toda a riqueza produzida no País) avançou 6,3%, a maior taxa acumulada para 12 meses da série histórica do IBGE, iniciada em 1996. Com o novo resultado do PIB trimestral, os economistas estão revendo as projeções para o desempenho do ano. Até agora, eles projetavam um crescimento de cerca de 5% em 2008. Mas mesmo se não houver crescimento no quarto trimestre em relação ao terceiro trimestre, o PIB deve avançar cerca 6%, o que seria o melhor resultado desde 1986, quando o Brasil cresceu 7,49%.

O saldo também foi bastante positivo em relação ao segundo trimestre, com alta de 1,8%. A gerente de contas trimestrais do IBGE, Rebeca Palis, que divulgou ontem os resultados, chamou a atenção também para o ineditismo do forte crescimento no acumulado dos nove meses do ano: 6,4%.

Ela destacou que, no terceiro trimestre houve expressivas taxas de crescimento do PIB ante o mesmo período de 2007 dos segmentos componentes da indústria, como construção ( 11,7%); extrativa mineral (7,8%); indústria da transformação ( 5,9%); e serviços industriais de utilidade pública (5,7%). "Mas o destaque foi o setor da construção", afirmou Rebeca, lembrando que a construção se beneficiou de um "aumento de crédito para o setor".

Esse cenário, porém, passou. O quadro hoje é outro, como lembra o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. "O PIB do terceiro trimestre não afasta um risco de recessão por um motivo simples: foi o resultado de um período de crédito e consumo acelerados, com crescimento bem acima do PIB. Esse impulso está perdendo força por conta da crise de crédito". Para ele, não é correto fazer projeções com base nesse resultado e o futuro é uma incógnita. De certo, apenas a forte desaceleração esperada para o quarto trimestre.

"Essa crise é muito peculiar. Produz efeitos repentinos, é muito rápida. Assim foi em vários países e está sendo no Brasil. Não quer dizer que teremos recessão, mas tudo indica que teremos uma desaceleração considerável", diz. A avaliação de que o ciclo de força econômica será interrompido próximo trimestre é consensual. "Esse resultado será o pico da série histórica, um crescimento forte que não se via desde o segundo trimestre de 2004, mas que, por conta da crise econômica, faz parte do passado", diz Sérgio Vale, da MB Associados, lembrando que, a partir de outubro os indicadores trouxeram "uma quebra de tendência como há muito tempo não se via". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo

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