Os bancos médios não devem repetir nos próximos trimestres o vigoroso crescimento dos lucros obtido no período de abril a junho, que superou o desempenho das grandes instituições. Esses resultados tendem a desacelerar mais à frente, em razão da elevação do custo de captação, disse o analista João Augusto Salles, da Consultoria Lopes & Filho.

O lucro do BicBanco, Daycoval, ABC Brasil, Sofisa e Panamericano cresceu, respectivamente, 217,73%, 34,4%, 68,3%, 28,1% e 27,9% ante o mesmo período de 2007. Entre os grandes bancos privados de capital aberto, nenhum apresentou expansão superior a 20%.

O que explica essa diferença é a carteira de crédito. Enquanto Bradesco, Unibanco e Itaú tiveram, na média, evolução de 39,8%, os bancos médios mostraram expansão de 95,7%. A evolução da carteira de crédito e a concentração em nichos específicos de negócios foram as alavancas para os bons números desses bancos.

Essas instituições ainda têm em comum a recente abertura de capital. Os IPOs renderam um capital que lhes permitiu aumentar os empréstimos, segundo Salles. Mas o patrimônio maior fez com que apresentassem rentabilidade menor que a das grandes instituições, uma média de 20,3% contra 26,4%.

Salles observa que só o aumento do patrimônio não causaria a expansão do crédito. A demanda dos clientes, em especial das empresas, também contribuiu. "A oportunidade existe pelo viés da demanda, que é pujante. Esse é o segmento de crédito que menos sofre com a alta de juros", disse o especialista.

A analista Lia da Graça, do Banif , também confia na continuidade da demanda por parte das empresas, que precisam de mais capital de giro no segundo semestre. Mas ela pondera que a elevação da Selic faz subir o custo de captação, o que reduz a margem dos bancos.

Adicionalmente, esses bancos devem aumentar as provisões para créditos de liquidação duvidosa para compensar a redução das margens e evitar aumentos futuros de inadimplência. "Os bancos costumam se antecipar para não serem surpreendidos."

Embora não façam estimativas de lucro, ao admitir que nos próximos meses a expansão do crédito será menor que no semestre passado, os bancos acabam sinalizando que a variação do lucro de 2008 pode não ser tão significativa quanto no segundo trimestre. Enquanto em junho o volume total da carteira foi, em média, quase o dobro do verificado no mesmo mês do ano passado, a aposta é que a evolução neste ano fique em cerca de 50%.

Mesmo com previsão de desaceleração dos empréstimos, a estimativa dessas instituições é ainda superior à esperada pelos grandes bancos, que projetam alta entre 25% e 30% em 2008. O otimismo tem como base a manutenção do nível de emprego, que estimula o consumo, mesmo com juros mais elevados.

O BicBanco pretende entregar uma carteira 50% maior até dezembro. Em junho, era de R$ 9,171 bilhões, com aumento de 56,9% ante o mesmo mês do exercício anterior. Outra meta é fazer com que a rentabilidade fique em torno de 25%. "Todo o acréscimo na Selic tende a mitigar a demanda por crédito, mas não é o que vimos até agora; pelo contrário, boa parte das empresas está com demanda bastante vigorosa", disse Milton Bardini, vice-presidente do BicBanco.

Sobre inadimplência, a preocupação nessas instituições é menor porque os empréstimos concedidos para empresa, em geral, têm garantias, como recebíveis. No caso de pessoas físicas, esses bancos têm se dedicado à carteira de veículos, que possui alienação fiduciária.

No Panamericano, o estoque de crédito soma R$ 8,632 bilhões, sendo 52,4% de veículos. "Temos garantia real, o que reduz as perdas", disse o diretor-financeiro, Wilson de Aro.

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