Nunca na história do sistema financeiro o dólar sofreu uma queda tão grande como moeda de referência como no segundo trimestre do ano. Dados da Barclays Capital indicam que 63% das reservas obtidas por bancos centrais e comerciais foram em euros ou iene.

No trimestre, o dólar representou apenas 37% das reservas adquiridas. No fim do anos 90, quando o euro era criado, o dólar representava 65% das novas reservas.

Em estoque, o dólar ainda é majoritário. Mas nunca a taxa foi tão baixa. A moeda americana representa 62% das reservas de banco centrais, calculada em US$ 4,2 trilhões. É a menor taxa apurada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 2000, o dólar representava 71% dos estoques de US$ 1,4 trilhão.

A recessão nos EUA, o déficit americano e a tentativa do Federal Reserve (Fed, o BC americano) de inundar mercado com dólares para relançar a economia seriam fatores que pesaram para essa virada de mesa. A desvalorização do dólar, também. Em uma década, a moeda americana perdeu mais de 30% de seu valor perante o euro. Só nos últimos três meses, a desvalorização foi de 10%.

O resultado tem sido uma rejeição crescente de investidores em aplicar em moeda americana. A rebelião, segundo economistas, pode durar até que o Fed aceite que a taxa de juros real negativa não tem como ser mantida.

Banqueiros e especialistas alegam que a queda do dólar como reserva dos países não significa que a moeda americana esteja desaparecendo. "Não há substitutos. Isso é claro para todos", afirmou Mohamed Al-Jasser, presidente do BC da Arábia Saudita. "O dólar ainda é central. Ele só não é mais a única opção", explicou. Em 2000, o euro representava 17,5% das reservas mundiais. Hoje, chega a 27,5%. A libra esterlina, que representava 2,9%, hoje é a escolha de 4,3%.

Mas a desvalorização do dólar ante o euro não tem agradado aos europeus. O euro atingiu sua maior alta em relação ao dólar nos últimos 14 meses e ameaça retardar a recuperação dos países, quando muitos já esperavam sair da recessão. "Se o euro continuar nessa direção, corremos risco de uma recuperação ainda mais lenta", disse o primeiro-ministro de Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, presidente do Eurogrupo, bloco dos países que usam o euro.

Desde março, a moeda europeia subiu 18% em relação ao dólar. No final da semana passada, o euro atingiu a marca de US$ 1,49. O pico foi em julho de 2008, quando chegou a US$ 1,6.

Mas Bruxelas teme que o governo americano esteja permitindo essa desvalorização para estimular exportações e reduzir seu déficit. Enquanto isso, as exportações europeias registram a maior queda em sete meses, de 5,8%. Para o presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, é "muito importante" que as autoridades americanas mantenham um dólar forte.

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