Multinacionais norte-americanas instaladas no Brasil têm enviado dólares às sedes num volume nunca visto. A crise imobiliária nos Estados Unidos acelerou a transferência de recursos e o volume cresceu 50,5% no primeiro trimestre.

Em 12 meses até março, US$ 9,2 bilhões trocaram o Brasil pela maior economia do mundo. Com tantas remessas, o País sobe no ranking dos que mais enviam receita para as empresas nos EUA e já supera Japão, China, Rússia e Índia.

Levantamento do Escritório de Análises Econômicas do Departamento de Comércio dos EUA revela que a transferência de receitas geradas pelos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) norte-americanos no Brasil cresce em ritmo muito superior ao registrado em outros mercados. Enquanto as remessas brasileiras saltaram mais de 50%, o montante enviado pelo conjunto de todos os países aos Estados Unidos aumentou 14,5% no mesmo período. O valor remetido atualmente pelo mercado brasileiro é mais de dez vezes superior ao registrado há pouco mais de cinco anos.

Em 2002, US$ 880 milhões saíram do País e rumaram aos EUA. Pelo critério adotado pelo Departamento de Comércio dos EUA, são contabilizados os lucros, dividendos, retorno de investimentos e algumas operações intercompanhia. Por isso, o valor é maior que o divulgado pelo Banco Central do Brasil, que só calcula lucro e dividendo. Diante desse quadro, o Brasil ocupa o 13º posto no ranking dos países que mais geram lucro aos investimentos norte-americanos mundo a fora.

À frente do chamado Bric - denominação criada para denominar Brasil, Russia, Índia e China -, o País envia US$ 1 bilhão a mais que a China e três vezes mais que Índia e Rússia. Em 2004, o Brasil estava na 19º posição nessa lista. Desde então, ultrapassou o gigante asiático e países como a França e Espanha. As transferências ganham muita força desde o ano passado, com o início da crise no mercado de hipotecas norte-americano em agosto.

Com a desaceleração econômica, empresas têm enfrentado dificuldades - principalmente na construção civil e setores bancário e automotivo - e, por isso, aumentam a exigência de recursos das subsidiárias que dão lucro, como as brasileiras. Ao mesmo tempo, as empresas que operam no Brasil têm conseguido bons resultados. Em meio ao aumento da renda e boom do crédito, a economia nacional tem registrado recordes em vários indicadores, como na produção de veículos, concessão de crédito e venda de imóveis. Isso tem elevado a rentabilidade das companhias.

"Para uma empresa dos EUA, o início da crise pode ter feito com que decidissem antecipar a remessa de lucros diante da perspectiva de queda da atividade econômica. No caso do Brasil, esse quadro foi potencializado com os bons lucros e o câmbio favorável", diz a professora da Unicamp, Daniela Prates. "Os dados surpreendem e mostram o papel cada vez mais importante do Brasil", completa o presidente da Sociedade Brasileira de Empresas Transnacionais (Sobeet), Luis Afonso Lima.

Os dois especialistas ficaram surpresos com a posição brasileira à frente da China. Para Daniela Prates, o fato pode estar relacionado diretamente ao aquecimento da economia nacional nos últimos trimestres. "Com o Brasil crescendo mais forte, os lucros aparecem. Na China, a economia tem um ritmo mais forte, mas de forma estável há algum tempo", afirma. Para Afonso Lima, o real valorizado pode ter tido papel fundamental na disparada das remessas.

Mesmo com a desvalorização da moeda brasileira nas últimas semanas, Afonso Lima mantém a aposta de que as remessas para os EUA devem continuar recordes. "Tirando o câmbio, as outras variáveis continuam favorecendo as remessas, como o grande estoque de investimentos, crescimento forte da economia brasileira e atividade em queda nos EUA", diz. Já para a professora da Unicamp, as transferências devem diminuir no médio prazo. Para ela, a expectativa de desaceleração da atividade econômica no Brasil vai reduzir o lucro das empresas e, ao mesmo tempo, a desvalorização do real vai tornar as remessas menos vantajosas.

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