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BRASÍLIA - As remessas de lucros e dividendos, um dos principais fatores de pressão do déficit em conta corrente externa, acumularam o volume recorde de US$ 18,993 bilhões no primeiro semestre do ano. O valor é quase o dobro dos US$ 9,807 bilhões de igual período do ano anterior e já representa 65,5% das saídas estimadas pelo Banco Central (BC) para 2008 todo, de US$ 29 bilhões.

Em câmbio liquidado até hoje, a autoridade monetária contabiliza remessas de lucros da ordem de US$ 2,060 bilhões em julho, totalizando US$ 21, 053 bilhões no ano. Em todo o ano de 2007, o último recorde anual para esse tipo de remessa de divisas, foram remetidos US$ 22,435 bilhões.

No mês de junho, os lucros e dividendos enviados ao exterior foram da ordem de US$ 3,396 bilhões ou 94,5% superior aos US$ 1,746 bilhão de mês igual de 2007.

Os lucros e dividendos são um ítem importante na conta de serviços e rendas, onde o país lista suas principais despesas com o exterior.

Também ganharam destaque os custos de viagens internacionais de brasileiros, que em 2008 têm registrado sucessivos recordes por conta da baixa cotação do dólar.

De acordo com o BC, a conta de viagens internacionais acumulou déficit de US$ 2,635 bilhões no primeiro semestre, o mais elevado para o período. Também são marcas recordes o déficit acumulado em 12 meses até junho, em US$ 4,833 bilhões, assim como os gastos de brasileiros, em US$ 10,25 bilhões, e as despesas de turistas estrangeiros no Brasil, no valor de US$ 5,416 bilhões, em igual período de comparação.

Já do lado dos ingressos de divisas, o BC toma para a conta corrente o saldo comercial e recursos enviados por brasileiros residentes no exterior. Essas entradas têm ficado abaixo de 2007, ajudando a pressionar o déficit da conta corrente, que acumulou no ano até junho a cifra de R$ 17,4 bilhões.

Pressionado por aumento de 51% nas importações no semestre, o saldo da balança comercial fechou o período superavitário em US$ 11,349 bilhões, cerca de 44,8% inferior ao superávit de US$ 20,577 bilhões verificado nos primeiros seis meses de 2007.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, afirmou que o governo espera redução das saídas de divisas e melhora no desempenho da balança comercial até dezembro. As importações são benéficas porque modernizam o parque fabril brasileiro e as exportações ainda têm taxas de crescimento expressivas, avaliou.

Em primeiro lugar, ele justifica que as remessas de lucros estão influenciadas pela cotação baixa do câmbio, mas em especial pelo bom dinamismo da economia. O aumento das remessas decorre de lucro das multinacionais no país, pois quando não há lucro não há o que remeter, comenta ele.

E adverte ainda que os setores que mais remetem são aqueles atingidos por escassez de liquidez decorrente da crise do subprime imobiliário americano, iniciada em 2007. Os bancos e as montadoras de automóveis lideram essas remessas, que, segundo Lopes acredita, devem desacelerar daqui para frente.

Lopes cita ainda que a crise americana tem influência na ligeira queda das remessas de brasileiros ao país (transferências unilaterais correntes), que no semestre acumulou US$ 1,85 bilhões ante US$ 1,94 bilhões em igual período anterior.

Além de apostar em melhores desempenhos da balança comercial, prevendo certa acomodação nas importações ao longo do segundo semestre do ano, o executivo do BC diz ainda que as pressões das viagens de brasileiros ao exterior podem ser reduzidas: ele espera que os estrangeiros elevem seus gastos no Brasil.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

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