BRASÍLIA - Com a piora na crise financeira internacional, em setembro as multinacionais rasparam os caixas e enviaram ao exterior forte volume de remessas de lucros e dividendos, mesmo com a taxa de câmbio mais elevada. Foi a principal pressão para elevar o déficit da conta corrente externa em mais de US$ 1 bilhão acima do esperado.

De acordo com o Banco Central (BC), o resultado dos compromissos externos do país foi negativo em US$ 2,769 bilhões no mês passado, acima da previsão de déficit de US$ 1,7 bilhão feita pela autoridade monetária.

As remessas de lucros e dividendos somaram US$ 3,436 bilhões, montante superior aos US$ 1,9 bilhão de agosto, e mais que o dobro do que foi remetido em setembro de 2007 (US$ 1,68 bilhão).

Para outubro, o BC espera que a conta corrente seja deficitária em US$ 2 bilhões, também sob impacto das remessas de lucros, que no mês até hoje já somam US$ 1,126 bilhão, com tendência de ampliação.

Para o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, essas remessas, que resultam de maior lucratividade no país e que cresceram para cobrir perdas das multinacionais com a crise financeira, devem ser vistas como o componente cíclico da piora da conta corrente em 2008. "As remessas de lucros foram mais importantes que a retração no saldo comercial", comentou ele.

Tomando o resultado da conta corrente acumulado no ano até setembro, com déficit de US$ 23,264 bilhões, ante o superávit de US$ 3,617 bilhões registrado em período igual de 2007, a diferença é negativa em US$ 26,881 bilhões.

Segundo Lopes, a balança comercial contribui com um efeito negativo, na margem, de US$ 11,296 bilhões para essa piora, enquanto que a diferença em remessas de lucros e dividendos é de US$ 15,466 bilhões, na mesma base de comparação.

O técnico do BC continua a aguardar uma desaceleração nessas saídas, embora o agravamento da crise de liquidez mundial aponte para o contrário.

Mas ele lembra que, para 2009, com a previsão de menor crescimento econômico interno e a recuperação do preço do dólar americano sobre o real, a tendência é que a conta de remessas de lucros fique menor.

Para 2008, o BC prevê remessas da ordem de US$ 33 bilhões, com queda para US$ 30 bilhões no próximo ano. De janeiro a setembro, esta conta acumula saídas da ordem de US$ 27,5 bilhões, acima dos US$ 22,4 bilhões em todo o ano de 2007.

Três setores respondem por mais da metade das remessas de lucro no ano: veículos (24%), metalúrgico (14,8%) e financeiro (12,2%). São os que têm lucrado no país, cujas matrizes no exterior têm apresentado grandes perdas com a crise.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.