A crise de uma das maiores redes de varejo do Rio, a Casa & Vídeo, abriu um atalho para concorrentes abreviarem seus planos de expansão no mercado fluminense. A própria Casa & Vídeo confidencia, sem divulgar nomes, que estão de olho não só nos pontos de venda, mas também na marca de forte apelo entre os cariocas.

Com faturamento anual de R$ 1,5 bilhão, 68 lojas no Rio e 6 mil funcionários, a empresa está com dificuldades de fluxo de caixa, admite demitir ao menos 1,6 mil pessoas e vai fechar lojas.

Diante disso, Lojas Americanas, Pão de Açúcar e Ricardo Eletro demonstraram interesse no negócio, conta uma fonte do setor. Redes como Ponto Frio também procuram bons pontos de localização. "Várias empresas já bateram na nossa porta. Temos um ativo fantástico (lojas). Não é nossa intenção fechar lojas. Agora, poderemos fechar? Sim, poderemos", afirmou o presidente da Casa & Vídeo, Fernando Luzio.

Luzio assumiu o cargo em dezembro com a missão de administrar a crise da empresa, alvo de uma investigação da Polícia Federal por suspeita de irregularidades, com práticas como evasão de divisas, sonegação fiscal e descaminho. Ele montou uma equipe de 15 profissionais para a reestruturação da empresa e contratou a consultoria Alvarez e Marsal, que ajudou a elaborar o plano de recuperação judicial da Varig.

De acordo com Luzio, o número exato de lojas que serão fechadas, assim como de demissões, ainda está indefinido. O presidente do sindicato dos empregados do Comércio do Rio, Otton Mata Roma, afirma que o corte de pessoal pode chegar a 3 mil, o que representaria metade da força de trabalho da Casa & Vídeo. Luzio não confirma esse número.

O grupo Pão de Açúcar informou que está atento a oportunidades de negócio, "desde que agreguem valor à operação já existente". As Lojas Americanas não comentaram o assunto. A rede tem 466 lojas no País, incluindo o formato Americanas Express/Blockbuster. Deste total, 67% estão na Região Sudeste. E o plano da Ricardo Eletro de ter 70 lojas no Rio em 2009 - atualmente são 25 - poderá contar com a ajuda de lojas da Casa & Vídeo. "Se algum ponto for do nosso interesse, a gente negocia, sim", disse Ricardo Nunes, dono da empresa.

"Estima-se que a Casa & Vídeo tenha 25% do mercado de bazar , eletroeletrônicos e utilidades domésticas no Rio. É um nicho de mercado interessante que ninguém conseguiu estabelecer", diz o especialista em varejo Marco Quintarelli, da consultoria Quintarelli Solutions.

É por causa desse perfil, aliado à boa localização das lojas da Casa & Vídeo, que Lojas Americanas, Pão de Açúcar e Ricardo Eletro estão de olho na rede fluminense, avalia a fonte do mercado. Segundo ela, a Americanas quer aumentar sua presença no Rio e eliminar o nome da concorrente. A estratégia do Pão de Açúcar, dentro de sua política de administrar marcas regionais, é ter uma bandeira forte de produtos eletroeletrônicos no Rio, a exemplo da Eletro em São Paulo.

Para a rede mineira Ricardo Eletro, conta a fonte, seria a maneira mais rápida de dar um salto em sua presença no Rio, onde tem mostrado uma agressiva estratégia de expansão. "A Casa & Vídeo tem uma grande capilaridade, com muitas lojas espalhadas em diversos bairros e cidades do Rio. Como boa parte das vendas é de produtos de utilidades para o lar, o caminho natural deverá ser o interesse de redes regionais, que querem lojas de bairro", diz o professor de pós-graduação em marketing da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) do Rio, Vitor Pires.

A Ponto Frio, que já declarou publicamente o desejo de se tornar a rede número um do Rio, não descarta o interesse em algum ponto de venda da rival. "Independente de ser da Casa & Vídeo ou não, se a gente encontra bons pontos, com certeza, vai avaliar", diz o diretor comercial da rede Ponto Frio, Marcos Vignal.

O plano de reestruturação da Casa & Vídeo, conforme uma fonte do mercado, prevê o fechamento de ao menos 10% das lojas. Deverão ser unidades deficitárias, principalmente. Ao todo, são 77 pontos de venda, incluindo Espírito Santo e Minas Gerais, que só aceitam dinheiro ou cheque, uma tentativa de reforçar o caixa prejudicado com o bloqueio das contas correntes, resultado da operação "Negócio da China", deflagrada pela Polícia Federal em novembro.

Com a crise, em dezembro, a rede teve queda de 15% nas vendas em relação a dezembro de 2007. Em janeiro, o recuo já chega a cerca de 10% na mesma base de comparação.

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