O governo federal quer aumentar os investimentos destinados às indústrias farmacêuticas nacionais e aos hospitais referência para o desenvolvimento próprio de medicações contra o câncer. Em reunião no início da semana, o Ministério da Saúde, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) firmaram acordo com o objetivo de desenvolver novas terapias para a doença que mata 325 pessoas todos os dias no País - 120 mil por ano.

"O primeiro passo é criar uma rede integrada de pesquisa sobre o câncer, alinhar todas as produções científicas já em andamento no País e corrigir os gargalos", afirma o presidente do CNPq, Marco Antônio Zago. "Depois disso estabelecido, será possível fazer com que os laboratórios brasileiros andem com as próprias pernas e passem a desenvolver medicamentos realmente novos e nacionais."

Atualmente, só em São Paulo estão sendo realizados nos principais hospitais oncológicos testes em pacientes sobre ao menos 89 novas medicações contra neoplasias. A maior parte é financiada por farmacêuticas estrangeiras. "Já temos competência científica para deixarmos de ser só parte de um consórcio internacional. Com os recursos racionalizados, é possível baratear o custo de produção no País", completa Zago. Segundo ele, em breve, será lançado um edital para apoiar pesquisas na área.

As melhorias proporcionadas aos pacientes que participam de testes sobre novas drogas contra o câncer já podem ser mensuradas. Escolhidos especialmente quando as terapias tradicionais já não fazem mais efeito, alguns dos participantes aumentaram a sobrevida mesmo com um diagnóstico severo de câncer.

É o caso da paulistana Sônia Maria Martim, 61 anos. Com tumor avançado que acometeu as duas mamas e se espalhou para os ossos, ela é voluntária de um estudo conduzido no Hospital A.C. Camargo. Há um ano, usa uma medicação que não chegou ao mercado e a vitalidade esbanjada por Sônia é um dos termômetros dos resultados.

Para a coordenadora de oncologia clínica do Instituto Brasileiro Contra o Câncer (IBCC), Célia Tosello, o principal benefício de uma rede interligada de pesquisas nacionais é estender o alcance da tecnologia de ponta contra o câncer a todos os brasileiros. "Faz com que os melhores serviços não fiquem concentrados em uma só região e para um grupo de pessoas."

Só no IBCC estão em fase de testes 24 novos remédios contra o câncer, sendo14 de mama, 3 de tumores ginecológicos, 4 de próstata, 1 de sarcoma, 1 de cabeça e pescoço e 1 de melanoma.

Recrutamento ágil

"Outra vantagem da rede integrada é que o recrutamento de pacientes participantes, que é muito rígido, tende a ficar mais ágil", diz Marcello Fanelli, diretor de oncologia clínica do A.C. Camargo, onde 36 novas medicações contra tumores malignos estão em fase de testes. "Mas é preciso aumentar a agilidade e a qualidade das pesquisas nacionais. Ainda engatinhamos nesse assunto e, sem investimento estatal, não conseguiremos desenvolver medicações por iniciativa própria, apesar de termos capacidade."

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