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A valorização do real começa a fazer diferença nos planos das empresas brasileiras na hora de comprar insumos e peças. Fornecedores locais estão sendo preteridos por fabricantes no exterior, porque o câmbio forte tornou mais barato comprar fora do País resinas plásticas, minerais não-metálicos e até peças para veículos.

Os empresários relatam diferenças de preços de 15% a 20% entre matérias-primas nacionais e importadas. Em um mercado global mais competitivo, por causa da crise, são porcentuais decisivos, que compensam a logística da importação.

“Recebemos ofertas muito interessantes da Ásia. Hoje a resina plástica asiática é 20% mais barata”, diz o supervisor de importação da Cipatex, Antônio Farah. A empresa, que fabrica componentes para calçados, está importando 70% das resinas que utiliza, muito acima dos 10% a 20% de antes da crise. As importações de insumos estão crescendo mais rápido que a indústria. O volume de importações de insumos subiu 20% entre maio, quando atingiu o nível mais baixo, e setembro, conforme cálculo da MB Associados, livre de influências sazonais. O porcentual é cinco vezes maior que a alta de 4,7% da produção da indústria no período.

“Com o dólar neste patamar, importar insumos é uma forma de melhorar a margem sem aumentar preços”, disse o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. Para o economista da MB, Sérgio Vale, é cedo para verificar uma troca maciça de fornecedores, mas o movimento deve se intensificar em 2010, com aumento da produção industrial. O processo é mais forte entre os fabricantes de calçados e têxteis, que operam com margens apertadas por causa da concorrência da Ásia. Para esses setores, importar insumos é a única maneira de continuar exportando e de manter sua posição no mercado interno.

A Hering aproveitou a queda do dólar para formar uma espécie de “estoque regulador” de fios, que vão abastecer suas tecelagens, conforme a assessoria de imprensa. O diretor de suprimentos da empresa estava em viagem à China em busca de novos fornecedores. Outra opção da empresa tem sido trazer peças prontas para o País, que já representam 15% das vendas. As compras de insumos no exterior se intensificaram em setembro e outubro. O movimento trouxe novo vigor para as importações brasileiras, já que bens intermediários representam 50% do total. Em outubro, a média diária de importações do País chegou a US$ 607,3 milhões - a mais alta do ano. Em relação a outubro de 2009, no entanto, a queda é de 22%.

A substituição de fornecedores não é a única responsável pela recuperação das importações de insumos. Para os economistas, outros fatores também colaboram como o fim dos estoques formados na crise e a proximidade das festas de fim de ano. As compras de bens intermediários no exterior despencaram com a crise e demoraram para se recuperar. Fornecedores locais passaram a oferecer preços atrativos, porque não tinham a opção de exportar. Agora o cenário se inverteu, com mercado interno aquecido e câmbio favorável à importação. “Vamos entrar em 2010 com a importação crescendo”, disse o economista-chefe da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Fernando Ribeiro.

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