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Real cai 26% e país vive nova máxi

A queda do real ante o dólar desde a concordata do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em setembro, já pode ser considerada uma maxidesvalorização. Do dia 12 daquele mês até a última sexta-feira - ou seja, exatos três meses -, a moeda brasileira se desvalorizou 25,9%.

Agência Estado |

Nos 90 dias que se seguiram à mudança do regime cambial brasileiro, em janeiro de 1999, a perda do real foi de 27,2%. A principal diferença entre aquele período e o atual é o comportamento da inflação, "enigma" que intriga analistas.

Um levantamento do economista-chefe da Bradesco Corretora, Dalton Gardimam, revela que o Índice de Preços no Atacado Disponibilidade Interna (IPA-DI) saltou 6,99% em fevereiro de 1999. Em novembro deste ano, apurou deflação de 0,17%. "Há sinais de que o repasse da alta do dólar para a inflação, desta vez, inexiste."

O especialista escolheu o IPA-DI porque é o indicador que melhor espelha a variação do dólar no País. No entanto, até mesmo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que serve de referência para a meta de inflação, mostrou inesperada desaceleração em novembro (0,36% ante 0,45% em outubro).

Números como esses têm provocado um acalorado debate entre os analistas, pois os modelos matemáticos tradicionais estimam que cada 10% de desvalorização do real produz uma alta de um ponto porcentual nos índices de preço ao consumidor (IPCs). É por essa razão que o Comitê de Política Monetária (Copom) estava especialmente pressionado em sua reunião da semana passada, na qual decidiu manter a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano.

Como Gardimam, parte dos especialistas argumenta que vários fatores distinguem a situação atual da de 1999 - e também da de 2002, quando a perspectiva da eleição do então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma disparada do dólar. "A palavra-chave, hoje, é crédito", diz o economista do Bradesco.

O argumento dele é que a escassez de crédito em outubro teve um efeito dominó sobre outros setores da economia, o que levou a uma brusca redução da demanda. É importante ressaltar que os dados do Banco Central (BC) apontaram uma alta de 2,9% no volume total de crédito no País naquele mês. Entretanto, parte dessa elevação se deveu ao aumento dos juros cobrados dos clientes. Além disso, o próprio BC mostrou que a concessão de novas operações teve recuo de 3%.

Outra explicação, citada pelo economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, diz respeito à expressiva queda dos preços das commodities nos últimos meses - de setembro para cá, o principal índice que mede a evolução das cotações dos produtos agrícolas caiu mais de 30% em dólar. "Mesmo em reais, os preços desses produtos vêm caindo", observa. "Isso tem tudo a ver com a recessão no mundo."

Há, ainda, um fator puramente interno: os altos estoques das empresas brasileiras. Todas vinham surfando na onda do forte crescimento, mas foram pegas de surpresa pela gravidade da crise. Agora, fazem de tudo para desovar esses estoques, sobretudo porque a época do ano (Natal) é propícia para isso.

Se é positivo para o consumidor, o movimento é mais um que pressionará para baixo os resultados corporativos nos próximos meses, segundo o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Ele diz que, além da provável queda de receita, em decorrência da desaceleração econômica, as empresas estão diante de custos mais altos, por causa do dólar. "No fim de janeiro, os balanços começarão a refletir essa realidade."

Vale acrescenta que empresas endividadas em dólar sofrem mais hoje do que em 1999. Em dezembro de 1998, pouco antes da desvalorização do real, as empresas deviam lá fora US$ 117,3 bilhões. Hoje, são cerca de US$ 130 bilhões. O governo tinha endividamento de US$ 103 bilhões, ante US$ 84 bilhões atualmente.

Ao manter o juro na semana passada, o Copom indicou que não está seguro de que a nova maxidesvalorização do real passará em branco na inflação. Para o economista-chefe da BRZ Investimentos, Alexandre de Ázara, a autoridade monetária acertou. "Uma comparação pura e simples do momento atual com o de 1999 pode levar a conclusões perigosas", afirma.

A base do argumento dele é o fato de que, nos anos que precederam 1999, o Brasil tinha um regime de câmbio fixo. "São períodos não comparáveis", diz.

O diretor de América Latina do HSBC e ex-diretor do BC Luís Eduardo de Assis confessa que não tem resposta clara para o fenômeno atual, mas chama atenção para outro fator que pode levar a inflação mais para baixo: os combustíveis.

"A gasolina está cara no Brasil", diz. Nas contas dele, para voltar ao valor médio dos últimos 12 meses, teria de cair 33%. Segundo Teles, da Concórdia, a gasolina pesa 4,2% no IPCA.

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