O Itamaraty pediu que outras pastas não enviassem ministros a Genebra para a reunião decisiva da Rodada Doha nesta semana. A confirmação foi dada ao Estado por uma fonte do governo, que pediu anonimato.

Ontem, na Organização Mundial do Comércio (OMC), tanto a Argentina como a Índia defenderam as afirmações do ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, de a Rodada Doha "não servia para nada". Sem graça diante da declaração, o chanceler Celso Amorim apenas ironizou. "Se Doha não vale nada, será que Stephanes acha que eu estou aqui me divertindo?" Amorim disse que não leu a entrevista de Stephanes, dada ao Estado um dia antes.

O setor privado brasileiro, com destaque para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), defendeu o acordo e criticou as declarações de Stephanes. Estimativas do Banco Mundial e da própria OMC apontam que o setor agrícola brasileiro seria um dos principais beneficiados com a Rodada. Mas a expansão das exportações seria inferior à que hoje é resultado da alta dos preços internacionais.

A declaração de Stephanes provocou certo impacto na OMC. "Concordo com ele (Stephanes)", disse o polêmico ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, sobre Stephanes. Para Nestor Stancanelli, negociador-chefe da Argentina, a proposta que estava sobre a mesa não traz nenhum benefício aos países emergentes. "O que disse Stephanes foi lindo", disse Alberto Dumond, embaixador da Argentina na OMC. Uruguaios e paraguaios também sorriam, satisfeitos com os comentários.

Índia e Argentina estão entre os mais radicais contra a abertura de mercados e alertam que a entidade estaria defendendo uma agenda dos países ricos. Até mesmo funcionários do Ministério da Agricultura saíram em defesa de um acordo, alegando que os limites aos subsídios seriam importantes no futuro.

Nos últimos dias, o Estado revelou que os representantes do Ministério da Agricultura e do setor privado ficaram de fora de todas as reuniões bilaterais com outros governos. Em encontros entre a UE e o Brasil, Bruxelas enviou o comissário de Comércio, Peter Mandelson, e a comissária agrícola, Mariann Fischer Boel. Japoneses e chineses também levaram a Genebra seus ministros de Agricultura. O Itamaraty reagiu, alegando que todos ministros foram convidados. E disse que foi Stephanes quem não aceitou.

Fontes revelaram ao Estado que o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, pediu para ir a Genebra. Sua pasta sugere que nove produtos agrícolas mantenham certas proteções, entre eles trigo, leite, tomate, arroz e feijão. O Itamaraty achou que não seria boa idéia, já que as salas de reunião comportariam apenas um ministro. "Ele foi desconvidado", disse uma fonte.

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