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O mercado terá crescimento sadio

O mercado automobilístico brasileiro vai desacelerar, depois de crescer a um ritmo de 30%, mas ainda manterá um crescimento sadio, afirmou o presidente mundial do grupo Renault/Nissan, Carlos Ghosn. Ele veio ao Brasil anunciar o início da produção de dois novos carros, o Sandero Stepway e o Nissan Livina, que levarão a fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, a uma produção recorde de 200 mil veículos em 2010.

Agência Estado |

Em entrevista ao Estado na sexta-feira, após falar a um público de mais de 2 mil concessionários de todas as marcas de veículos, o executivo de 53 anos disse acreditar que o governo brasileiro vai investir em infra-estrutura para evitar que grandes metrópoles como São Paulo não fiquem reféns dos congestionamentos. Sobre a crise dos EUA, sua aposta é de que em dois anos a situação melhore, mas haverá uma transformação na indústria automobilística, com ênfase em carros menores e mais eficientes.

Como o senhor vê a crise no mercado automobilístico nos principais mercados mundiais?
Em 2008 eu ainda estou vendo um mercado global com ligeiro crescimento. No ano passado tivemos crescimento de 6% em relação a 2006. Acho que este ano ainda vamos crescer de 1% a 2%. Isso porque, de um lado os mercados maduros estão caindo. Os Estados Unidos são o melhor exemplo. Passaram de 16,5 milhões de carros vendidos em 2006 para 16 milhões em 2007 e, para este ano, a previsão é em torno de 14,2 milhões. O Japão está estagnado. A Europa, que em 2007 estava estável, vai cair este ano. Acho também que o crescimento dos países emergentes vai diminuir. Na primeira metade deste ano, Rússia, China, Brasil, Índia, Oriente Médio foram ótimos, cresceram mais de 20%, mas isso vai mudar um pouco. Vamos ter uma desaceleração desses mercados na segunda parte de 2008, que vai continuar em 2009. Estou vendo um mercado mundial com ligeiro crescimento em 2008, provavelmente estável em 2009 e depois voltaremos ao crescimento. Acho que o mercado americano ficará baixo em 2008 e em 2009 e, depois, sua recuperação vai trazer de volta o crescimento mundial.

O senhor acredita que alguma empresa americana vai quebrar?
É muito difícil dar uma opinião sobre isso, pois seria necessário conhecer os detalhes de cada empresa. O que sabemos é que elas estavam se preparando para um período bastante difícil e reservaram liquidez. Acho que vão conseguir enfrentar a situação em 2008 e 2009. A grande pergunta é: será que o período de dificuldade nos EUA vai continuar além de 2009? Se for além, todo mundo vai ficar em dificuldade, particularmente aquelas que já estão mais fracas.

As empresas americanas estão fazendo lobby junto ao governo para obter empréstimos de US$ 25 bilhões com juros abaixo do mercado. Como o senhor vê essa ação?
Cada montadora pode pedir a ajuda que elas querem. Não cabe a nós fazer qualquer comentário sobre isso. Mas eu acho que a situação que estamos enfrentando hoje como indústria não é ligada a uma dificuldade só. Não é uma questão de financiamento. Enfrentamos uma situação em que o produto e a tecnologia vão mudar. É uma transformação da indústria automobilística em diferentes lados. Pessoalmente, não estou muito preocupado se uma concorrente consegue um empréstimo com um bônus qualquer.

A Renault/Nissan tem interesse em retomar negociações de parcerias, como tentou fazer com a GM?
No passado, tivemos interesse em fazer aliança com uma montadora americana, mas concluímos que o interesse não era compartilhado pela outra parte. Eu não acredito em algo forçado. Acho que, para uma aliança ter chance de êxito, tem de ser com mútuo consenso. É igual casamento.

E a compra de uma das empresas em crise, é possível?
Temos recursos necessários para fazer uma compra na indústria automobilística. Mas não acreditamos nisso, pois se não há aceitação mútua para uma parceria, comprar é ainda pior. A empresa que é comprada perde a alma, a motivação. Hoje, não se pode ter o luxo de ter uma parte da uma aliança que não funcione a 100% do seu potencial.

Enquanto as vendas de veículos derretem lá fora, no Brasil o mercado bate recordes. Qual o limite para esse crescimento?
A indústria brasileira não vai crescer 30% cada ano. Esses primeiros meses foram realmente excepcionais, mas o mercado não vai continuar nesse ritmo. Evidentemente vai ter desaceleração do crescimento, talvez sobre a influência de taxas de juros, pela ameaça de aumento de inflação ou outras questões. Mas o mercado continuará com crescimento bastante sadio. Considero que 20%, 30% de crescimento são taxas impossíveis de se sustentar por qualquer país no longo prazo. É uma bênção quando acontece, mas não é razoável seguir nesse ritmo.

Mantendo então um crescimento, ainda que menor, haverá ruas para tantos carros no Brasil?
Hoje não tem, mas vai ter. O desenvolvimento do Brasil passa pelo desenvolvimento da infra-estrutura. Há pouco tempo, estive com o presidente Lula e o grande orgulho dele foi falar de uma estrada que estava em construção. O presidente e os demais membros do governo sabem que, para o Brasil continuar a crescer, a infra-estrutura tem de ser desenvolvida. Não tenho dúvida de que o País vai investir nisso. O Brasil está ficando um país rico. Tem petróleo, matérias-primas, produtos agrícolas. Parte dessa riqueza tem de ser investida na infra-estrutura.

Quando o senhor fala do carro de baixo custo que será feito na Índia por US$ 2,5 mil, e que poderá futuramente ser feito no Brasil por US$ 10 mil, o senhor fala em preço de custo ou preço para o público?
Preço de custo. Mas esses carros geralmente não têm margem de venda muito grande e também não têm muitas despesas porque, por exemplo, não é preciso gastar com marketing. Então, o preço final fica bastante próximo do preço de custo. Se na Índia falamos de um preço de custo de US$ 2,5 mil, então falamos talvez de um preço público de US$ 3 mil ou US$ 3,5 mil. Não sei como ficaria no Brasil. O carro mais barato aqui custa R$ 22 mil (o Mille), mas tirando os impostos ficaria em R$ 16 mil. Fazer um carro nessas bases é totalmente possível. Não será um carro para competir com outros carros, mas com as motocicletas e triciclos.

A Renault, neste ano, recuperou o quinto lugar entre as maiores montadoras brasileiras, depois de ter caído para o oitavo. É nessa posição que a empresa quer ficar?
Estou feliz com a melhoria da Renault e da Nissan. Mas minha ambição é aumentar os passos. O primeiro deles é que nossa aliança no Brasil tenha a mesma participação que tem no mercado mundial, em torno de 9%. No Brasil, a Renault tem 4,5% de participação e a Nissan tem menos de 1%. Temos então 5,5%, no máximo. É bem melhor que os 2%, 3% que tínhamos, mas está bem longe da média que queremos.

Que estratégias serão adotadas para alcançar essa meta?
Produtos, produtos, produtos. Mais qualidade e serviço da rede. Introduzimos o Logan e o Sandero e eles já representam 64% das nossas vendas. Estamos chegando com mais produtos, todos ajustados ao gosto do consumidor brasileiro, modernos e a preços razoáveis. A rede também está motivada, pois hoje ganha dinheiro.

O mercado brasileiro representa quanto em vendas para o grupo?
Neste ano de 2008, com 150 mil carros, de um total de cerca de 6 milhões de vendas para o mundo, fica com 2%, 3%. É pouco ainda. Mas o Brasil, com 3 milhões de carros previstos no total, vai representar praticamente 4% do mercado mundial. É esse porcentual é o mesmo que queremos para a aliança.

O senhor acha que a alta do petróleo vai continuar?
A única certeza que temos é que o preço da gasolina é imprevisível. Temos de nos preparar para o pior, que é o preço mais alto. Alguns analistas falam em US$ 200 o barril. Não sei se chega a isso, pois alguns dizem que é uma bolha. O que sei é que se o preço cai, não tem problema. Se sobe, vai ter problema para quem não está preparado, não tem produto alternativo. Os que desenvolveram carros pequenos, com boa eficiência, estão se dando bem.

O que ocorrerá se o preço do barril chegar aos US$ 200?
Todos os mercados mundiais serão atingidos. O desenvolvimento da indústria automobilística será freado. Mas haverá um prêmio para os carros mais eficientes em termos de consumo. Isso também vai acelerar a transformação do carro a gasolina por híbridos, elétricos, hidrogênio.

A Renault trabalha no desenvolvimento do carro elétrico para 2010. Esse veículo também será uma alternativa para o Brasil?
Acho que o Brasil é um dos países que não tem muita necessidade de carro elétrico, com exceção talvez do uso na região central de algumas cidades, onde o tráfego é maior e há muita poluição. O Brasil tem tudo: petróleo, etanol, o problema do CO2 não é tão grande - a não ser no centro de cidades como São Paulo. O carro elétrico pode até ter futuro no Brasil, mas não no tamanho de outros países. Não temos planos agora de fazer um carro elétrico aqui, mas se no futuro for preciso, poderemos fazer.

Que futuro o senhor vê para a indústria automobilística?
Não sei se daqui a 20 anos eu vou ler um jornal, uma revista. Talvez tudo será computadorizado. Mas eu sei que as pessoas continuarão a dirigir um carro. Que tipo de carro, não sei. Talvez elétrico, pequeno. Mas temos o privilégio de estar em uma indústria que sabemos que seu produto estará aqui daqui a 15, 20, 30 anos.

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