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O colapso de Doha vai energizar acordos regionais

O colapso da Rodada Doha, ainda que seja uma péssima notícia para o mundo e para a economia brasileira, pode levar a uma energização de negociações comerciais entre o Brasil e os EUA - desde que a Venezuela não esteja no meio e que o clima internacional não tenha azedado por completo com uma proliferação de retaliações comerciais. Essa é opinião de Gary Hufbauer, pesquisador de comércio internacional do Peterson Institute for International Economics e autor de vários livros sobre o assunto.

Agência Estado |

Hufbauer prevê um aumento enorme no volume de litígios na Organização Mundial do Comércio (começando com o questionamento da tarifa americana sobre o etanol). Mas ele acha que os EUA, mesmo se estiverem sob o comando do democrata Barack Obama, negociariam um acordo envolvendo agricultura, indústria e serviços com o Brasil. No entanto, se a Venezuela estiver no Mercosul, os americanos podem optar por se concentrar em acordos na Ásia e Europa. Quanto à OMC, Hufbauer acha que a entidade vai se dedicar a acordos fatiados em assuntos específicos.

A Rodada Doha pode ressuscitar?
As outras rodadas também passaram por crises e acabaram sendo concluídas. Mas essa é diferente. Temos novos líderes assumindo o poder nos EUA e em vários países, e eles assumem em uma época de grande ceticismo popular em relação à globalização, diferentemente do que aconteceu nas outras rodadas. A maneira de negociação dessa rodada é totalmente diferente das outras - na Rodada Uruguai, um pequeno grupo de países, o Brasil incluído, é que tomava as decisões. Agora, é preciso conseguir que pelo menos 30, 40 países, de um total de 153, cheguem a um acordo. É muito mais difícil, trata-se de uma mudança na qualidade das negociações. Outro problema é ter a agricultura como centro - sou a favor da liberalização da agricultura, mas a oposição à abertura do setor é muito arraigada. E aí que entram pessoas como Kamal Nath (ministro do Comércio da Índia), que provavelmente está concorrendo à presidência. Para ele, Doha é uma campanha política, não se trata de economia.

Se a agenda da rodada ficar congelada por dois anos será muito difícil ressuscitá-la... a aritmética política não existe para reviver Doha em 2009, 2010... o novo presidente dos EUA não teria interesse em retomar Doha?
Você acha que Obama gastaria tempo nisso? Ou, se John McCain for eleito, você acha que o Congresso, que deve ser democrata, vai dar algum espaço para ele mexer com Doha? Em 2010, essa negociação vai parecer coisa de outra era, ninguém vai querer pegar restos.

Então o sr. não acha que haverá mais negociações multilaterais de comércio?
Sim, eu acho que haverá negociações diferentes na OMC. Eu acho que a OMC vai se engajar em rodadas plurilaterais sobre assuntos específicos onde é possível chegar a um acordo, rodadas onde iremos negociar fatias, pedaços, e não o bolo inteiro. Um exemplo são subsídios à pesca, que já vêm sendo negociados de forma discreta. Eles são uma preocupação para todos que se importam com meio ambiente, uma vez que o homem está acabando com o estoque de peixes dos oceanos. Esse é o tipo de negociação em que podemos reunir um grupo de países e negociar. Ou negociar isenção de tarifas para produtos ambientais - sei que haverá grande controvérsia sobre o etanol, para incluí-lo ou não. Mas seria uma boa negociação, dar tarifa zero para exportação de produtos ambientais. Mas há outro caminho.

Qual?
O colapso de Doha vai energizar os acordos regionais de comércio, principalmente na Ásia. Agora, se isso também vai acontecer no hemisfério ocidental, depende de o próximo presidente americano fechar um acordo com o Brasil que liberalize de verdade a agricultura dos EUA - eu não acho isso impossível.

Mesmo se o presidente for Obama, que é democrata?
Se um acordo for vendido como um meio de privilegiar os aspectos ambientais e ajudar a reduzir preços de alimentos. O Partido Democrata não ganha votos nos Estados que mais recebem subsídios agrícolas. Politicamente, Obama é o tipo do presidente que conseguiria costurar um acordo desses, que se encaixaria em sua visão mais ampla de política externa e ajudaria a quebrar o impasse no hemisfério. Seria um acordo com livre-comércio em agricultura, como o que temos com o México. E o Brasil reduziria tarifas na indústria.

E se o Brasil só negociar como parte do Mercosul, que pode ter a Venezuela como integrante?
Se a Venezuela estiver no pacote, a história muda. Obama ou McCain vão continuar a manter boas relações diplomáticas com a América do Sul, mas em termos de negociação comercial, iriam focar seus esforços na Ásia ou na Europa.

O ministério de Relações Exteriores do Brasil já declarou a intenção de contestar na OMC a tarifa dos EUA sobre etanol importado. Isso é uma tendência?
Uma série de litígios que estavam à espera de algum desenlace em Doha será aberta na OMC. Como a OMC vai lidar com isso, não sabemos. Podemos ter uma proliferação de painéis e retaliações. Se isso ocorrer, pode azedar relacionamentos entre países. O que talvez seja um mal que vem para o bem - force o mundo a retomar uma rodada multilateral.

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