Enquanto os juros elevados afastarem instituições financeiras privadas de projetos com taxas de retorno mais baixas e tempo de maturação mais prolongado, o BNDES continuará mantendo o esforço para tirar do papel essas iniciativas, disse o presidente do banco, Luciano Coutinho. Mas, segundo ele, também crescem os financiamentos via mercado de capitais e os investimentos feitos com o aumento dos lucros das empresas.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado:

Por que está aumentando o peso do BNDES nos investimentos?
O que está acontecendo é, primeiro, uma aceleração geral dos investimentos. Nos últimos dois anos, claramente os investimentos estão crescendo de maneira muito firme, o que é muito bom para o País. A Formação Bruta do Capital Fixo é um conceito amplo, que inclui todo o investimento, desde a pequena ampliação das unidades que já existem até a construção civil, que tem um peso importante no investimento. Quando o investimento está mais desaquecido, a Formação de Capital reflete muito o incremental, de pequena monta, feito de maneira difusa. Quando se entra num ciclo de crescimento do investimento, começa a haver projetos mais intensivos em capital, novas fábricas, novas unidades.

E o BNDES é a única alternativa disponível?
Quando se tem um ciclo de investimentos onde há muitas unidades produtivas novas, grandes projetos intensivos em capital, a demanda por investimentos típicos de escala relativamente grande e prazo de maturação muito longo fica mais forte e é natural, portanto, que o BNDES, que é o principal fornecedor/supridor desse tipo de crédito, tenha uma demanda que cresce mais forte do que a média.

A causa é essa e não a dificuldade de crédito privado?
Eu atribuo esse aumento do peso do BNDES ao fato de que a gente tem um ciclo de investimentos com características dessa natureza, especialmente com investimentos crescentes em infra-estrutura que, portanto, pressionam mais.

Qual foi o aumento de peso do banco?
Na verdade, o peso do BNDES na Formação do Capital, que era alguma coisa de 6%, 6,8%, de 2000 a 2005, no ano passado ficou acima de 8% e estamos caminhando para perto de 10% no momento.

Esse aumento é também reflexo da redução da TJLP?
Esse processo data do fim de 2005, quando a TJLP ainda não tinha caído tanto. E é concomitante a um aumento muito expressivo da participação do mercado de capitais no financiamento do investimento. Na verdade, o BNDES não substituiu o mercado; ao contrário, há um crescimento saudável do investimento. Na hora em que o investimento cresce a taxas muito mais rápidas, a duas vezes e meia o crescimento do PIB, e passa a ter perfil de prazo mais longo, é natural que a necessidade de financiamento aumente. Temos três componentes importantes que ajudaram. O primeiro é o aumento do lucro das empresas. A massa de lucro das grandes empresas tem sido constantemente reinvestida na formação de capital. A segunda parte é pelo mercado. As empresas usam parte do crédito de curto prazo, que elas rolam de maneira continuada. Em terceiro lugar, o mercado de capitais, que cresceu muito nos últimos anos. E o BNDES também cresceu.

O BNDES não está, então, substituindo o mercado?
Não vejo um processo de substituição, mas de combinação virtuosa de fontes. O fato de o BNDES ter uma taxa mais favorável não deve ser encarado como uma coisa negativa. Se isso não existisse, é muito discutível a tese de que o sistema bancário teria uma taxa muito mais baixa enquanto a Selic tiver de ser o que ela é.

A Selic encarece o mercado?
Não estou criticando a Selic, que está determinada pela política de controle da inflação e é fundamentalmente orientada por essa política. Se eu tivesse de calibrar a Selic, que produz uma taxa de longo prazo de mercado, compatível com a necessidade de investimento da economia, eu não conseguiria controlar a inflação.

O controle inflacionário emperra o mercado?
O desejável é que o Brasil consiga recolocar as expectativas de inflação sob controle e retomar o processo de queda da Selic, de tal maneira que a gente possa ter a taxa de juros de mercado muito próxima à TJLP ou até melhor. Nesse caso, então, o setor bancário privado poderá assumir, em grande escala, o papel que o BNDES desempenha hoje. Esse é um cenário que achamos positivo. Taxas de juros que voltem a cair e possam convergir para taxas de longo prazo compatíveis com o atual status de investment grade do Brasil.

Em quanto tempo o mercado financeiro assumirá o seu papel?
Acho que a subida necessária da Selic agora retardará um pouquinho no tempo esse processo. Mas ele vai ser retomado e, quando isso ocorrer, esse papel do BNDES pode ser reconfigurado.

A TJLP continuará descolada da Selic?
O problema é que não sabemos quanto tempo vai demorar, quanto a inflação vai subir, e é prematuro qualquer julgamento com relação à TJLP. Tenho absoluta confiança na capacidade do BC e do Ministério da Fazenda de colocarem a inflação dentro dos eixos.

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