O ex-banqueiro Salvatore Alberto Cacciola garante não ser uma ameaça aos envolvidos no escândalo financeiro que resultou na quebra dos bancos Marka e FonteCindam e no prejuízo de R$ 1,6 bilhão ao Banco Central durante a desvalorização do real em janeiro de 1999. A afirmação foi feita pelo próprio Cacciola ontem, ao sobrevoar ao Brasil, em suas primeiras declarações à imprensa após a extradição decidida pela Justiça do principado de Mônaco, onde estava preso desde 15 de setembro do ano passado.

"Não sou nenhuma bomba", assegurou, ao afirmar que tudo o que tinha a dizer sobre o caso já havia feito nos autos da Justiça e em seu livro, Eu, Alberto Cacciola, confesso: o Escândalo do Banco Marka, publicado em 2001.

Sério, mas respeitoso e muito tranqüilo, o ex-banqueiro falou ao Estado por menos de uma dezena de minutos, meia hora antes da aterrissagem no Aeroporto Internacional Tom Jobim, de onde foi levado para a prisão. Aquelas eram, até então, suas primeiras declarações à imprensa durante as 22 horas e 30 minutos de deslocamento entre Mônaco e o Rio de Janeiro.

Na entrevista, Cacciola desmentiu os boatos de que pretenda fazer revelações sobre a falência do Banco Marka. O escândalo envolveu, entre outros, o então presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e a diretora de Fiscalização da instituição, Tereza Grossi.

O ex-banqueiro também falou sobre seus dez meses detido em Mônaco, descrevendo a cadeia com vista para o Mar Mediterrâneo, com cela individual de 12 metros quadrados, TV e frigobar, como uma prisão como qualquer outra.

O ex-banqueiro não detalhou as circunstâncias de sua detenção no balneário de Monte Carlo, mas disse ter errado ao deixar a Itália - país do qual tem cidadania e de onde não poderia ser extraditado - e viajar ao principado vizinho, onde não contava com a proteção.

Sobre a volta ao Brasil, Cacciola se disse constrangido, mas sereno quanto ao olhar dos demais passageiros e da opinião pública. Ele também descartou o argumento - usado por seus advogados em São Paulo e na Europa - de que seja vítima de perseguição política pelo governo federal, e afirmou: "Eu confio na Justiça brasileira".

Proteção no vôo

A segunda e mais longa parte do vôo da extradição de Cacciola ocorreu entre a quarta-feira e a madrugada de quinta-feira, pelo horário de Brasília. A comitiva proveniente de Mônaco e Nice, na França, desembarcou no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, com atraso, às 18h de quarta-feira - 13h de Brasília.

Cacciola foi transferido para uma área de circulação restrita, onde permaneceu até reaparecer minutos antes do vôo na área vip da TAM, a empresa aérea que realizaria o transporte.

O ex-banqueiro embarcou na classe econômica do vôo JJ 8055 pouco antes das 22h - 17h de Brasília - e foi orientado a sentar-se na última fileira, no assento central, mais uma vez cercado por policiais federais.

Neste momento, o trabalho da imprensa foi prejudicado. Orientados pelo comandante do vôo, comissários de bordo proibiram fotos e impediram a passagem de repórteres ao fundo da aeronave, sem alegar nenhum motivo para as restrições.

"Você não pode passar com câmera fotográfica", advertiu um comissário à reportagem do Estado, que não portava nem câmera fotográfica, nem telefone celular com câmera. Diante da argumentação, o comissário resumiu: "Você não pode fazer o que quer fazer".

Protegido da imprensa, Cacciola fez um vôo tranqüilo. Conversou grande parte da noite, relatando "assuntos pessoais", segundo um agente da PF, e "sua versão dos fatos" para a quebra do Banco Marka, de acordo com Rodrigo Sagastume, assessor especial para extradições do Ministério da Justiça, que o acompanhava no deslocamento para o Brasil.

Durante o vôo, o ex-banqueiro chegou a dormir e também teve momentos de relaxamento no fundo da aeronave, quando conversou de forma descontraída com comissárias e com poucos passageiros. Apenas no fim da madrugada - e contrariando apelos dos funcionários da TAM, que tentavam impedir a permanência de jornalistas no local -, o ex-banqueiro Cacciola aceitou falar.

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