Tamanho do texto

O Produto Interno Bruto (PIB) recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Era inevitável.

Se ocorreu é porque tinha de ocorrer. Repetiu apenas o que ocorre na economia mundial. Não há mais nada a fazer quanto ao passado. É enganoso e pouco responsável ficar insistindo que, mesmo assim, a economia cresceu 5,1%. Conversa fiada. A realidade é que esse é um problema dos mais graves e só podemos contar com nós mesmos para enfrentá-lo.

Lá fora, eles vão continuar se afundando enquanto não criarem uma frente comum contra a recessão. E tudo indica que essa frente não vem.

OS G20 COM AGENDA ERRADA

Há nova esperança na próxima reunião do G-20, em Londres, no dia 2 de abril. É tênue, porém... Quase nula. O Brasil vai estar lá. A União Europeia não se entende, mesmo constatando que sua recessão é pior e pode ser mais demorada que nos EUA. Só afunda em meio a uma inércia inexplicável. Nunca houve tanta união em se desentender.

Os europeus pretendem que a reunião se concentre na reforma do sistema financeiro mundial. Como se não soubessem que se houver depressão, esse mesmo sistema afundará sozinho. Temem déficit fiscal e endividamento dos Estados membros, sem ver que eles ocorrerão de qualquer maneira e de forma inapelável se a recessão não for contida. Uma reversão de prioridades inacreditável. Insensatez imperdoável que poderá jogar o mundo numa recessão mais profunda e evitável.

VAMOS GASTAR MAIS!

Ontem, o presidente americano Barack Obama e o secretario do Tesouro Timothy Geithner fizeram uma advertência: nesse encontro que classificam como decisivo deve-se dar prioridade a um vigoroso aumento em gastos na economia real para reanimar a demanda de cada país, que definha. E isso não por um mês, dois. "Tanto quanto for necessário", afirmou Geithner. E já, acrescentou ele. O secretario cita o FMI, para o qual os países em recessão deveriam gastar no mínimo 2% dos seus PIBs. Insiste no grave alerta do FMI: ou se faz isso logo, ou a recessão entrará ano adentro.

E o sistema financeiro? Também é importante. Está afundando numa crise que nem de longe foi superada.Vai precisar ainda de mais alguns trilhões.Mas os governos já estão socorrendo maciçamente os grandes bancos, devem apenas continuar a fazê-lo. Não é necessário nenhum compromisso novo. (Aliás, esse foi o único que eles cumpriram). Quanto à reforma, pode vir depois, dá ele a entender. Primeiro, salve-se o sistema do caos, depois o reforme. Inverter a ordem é condena-lo.

Os EUA, grande culpados pela crise, já estão a enfrentando com energia e rapidez. Dor de consciência? Não, apenas realismo e lucidez. Mas, se os outros continuarem parados, os resultados serão mais lentos.

E O QUE FAZEMOS NÓS?

Nós levamos um susto com a queda de 3,6% do PIB no quarto trimestre do ano passado. Não sei por que, pois estava anunciada. Temos agora que intensificar com mais ousadia o que já estávamos fazendo, acompanhando os EUA e a China, os únicos países solitários nesta campanha.

Como? Ora, se não podemos contar com o mercado externo, como os financiamentos à exportação que recuaram mais de 30% no mundo, a prioridade é rever o programa de incentivo fiscal para as empresas e os consumidores, orientar-se na geração de emprego e o governo investir mais. E o PAC? Ora, senhores, vamos deixar o PAC de lado, certo? Está lento demais, burocratizado demais, pesado demais e, resumindo, ineficiente demais para nos ajudar a evitar a recessão. Sei que estimular a demanda exige financiamento oficial e privado, que existem mais são escassos. O bom desempenho do sistema financeiro é essencial. Mas ele está intocado. Há problemas? Pois que se enfrente e resolva de vez. Não há outra saída para evitar que o PIB despenque ainda mais, neste ano.

E NÓS NO G20?

Informa-se que Lula prepara um discurso duro contra o protecionismo e a favor de Doha. Mais uma vez está sendo mal orientado pelo Itamaraty. Presidente, o senhor deve aproveitar o encontro de todos os países importantes do mundo não para acusar, criticar ou propor soluções inviáveis. O protecionismo vai continuar porque oferece efeitos imediatos aos países em recessão enquanto os negativos só irão surgir muito depois. Doha é uma quimera. Ninguém vai abrir mais seus mercados. E nem nós mesmos.

Presidente, realismo. Não os condene pelo que não fizeram, mas aponte o que fizemos. Diga a eles que sigam o que o Brasil, a China e os EUA já estão fazendo ao estimular a demanda, o consumo, o emprego, a economia real. Nós temos ainda armas que eles não possuem. Diga que vamos utilizá-las com mais urgência e intensidade. Que não temos medo dos 3,6% do PIB porque, ao contrário deles, sabemos como enfrentá-lo e estamos enfrentando.

E o senhor, presidente, pela primeira vez tem condições de dizer aos grandes, aos que patinam na recessão, que o Brasil tem um exemplo a dar.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.