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Mar Gonzalo. Nova York, 17 set (EFE).- A queda de hoje das bolsas de valores apesar do resgate sem precedentes recebido pela seguradora American International Group (AIG) demonstrou, mais uma vez, que o medo é um dos piores inimigos dos mercados, por mais que autoridades e entes reguladores tentem controlá-lo.

A injeção urgente de US$ 85 bilhões do Federal Reserve (Fed, banco central americano) na AIG, uma das maiores seguradoras do mundo, não pôde conter o medo e a desconfiança dos investidores.

Na terça se acreditava que uma solução medianamente digna para a AIG, unida à compra do núcleo duro do Lehman Brothers pela Barclays e à apresentação de resultados do Morgan Stanley e do Goldman Sachs, poderia tranqüilizar os investidores, porém eles despertaram hoje nervosos e curiosos para saber quem será a próxima vítima da crise.

"Os riscos do sistema financeiro e da economia continuam sendo enormes e aumenta a pressão para a queda dos preços dos ativos e do valor da garantia", declarou a empresa de análise Global Insight em uma nota a seus clientes.

"O cenário de fundo econômico antes da explosão no sistema financeiro tem problemas: a produção industrial poderia cair bruscamente no terceiro trimestre, se espera que o consumo se contraia e a taxa de desemprego aumenta com força", declarou.

"Para todos os que quiserem ver está claro que há grandes riscos de cortes para a economia", concluiu a empresa de análise, seguindo as previsões que muitos investidores têm na cabeça.

Além disso, há analistas que interpretam a operação de resgate do AIG decidida na última terça como uma demonstração do tamanho da preocupação de Washington diante da possibilidade de que entre em colapso um novo gigante do setor, e já há críticas a uma medida que se considera "assistência corporativa".

Com esta operação o Fed agitou a calma que pareceu transmitir horas antes ao decidir manter as taxas de juros em 2%, sem se deixar levar pelo impulso de diminuí-las para tentar ativar a economia desta forma.

Sua operação de resgate surpreendeu os mercados, especialmente após sua recusa de socorrer o agonizante Lehman Brothers, que foi obrigado a se declarar em quebra na última segunda, contribuindo para a pior queda da bolsa desde os atentados de 11 de Setembro de 2001.

"O Fed e o Tesouro seguem reagindo ante as situações, mais que enfrentá-las diretamente, e agora criaram incerteza sobre que empresas têm direito de serem resgatadas e quais não", declarou hoje a Merrill Lynch em um relatório.

Na opinião deste banco de investimentos, cuja compra foi anunciada pelo Bank of America, "enquanto isto não for esclarecido as bolsas continuarão provando seus limites e isto não é uma boa notícia para o mercado", que registrava também fortes quedas nas maiores bolsas do mundo.

Os mercados asiáticos começaram com altas diante da notícia do resgate (e como continuação do fechamento em terreno positivo de Wall Street na sessão prévia), mas logo depois as baixas se apoderaram das bolsas e o Dow Jones chegava a cair até 3,6%.

Entre os analistas existe a crença de que os US$ 85 bilhões oferecidos não são suficientes para acabar com a desconfiança dos investidores e que o Fed pode estar se deixando levar não apenas pelo interesse geral.

O empréstimo concedido deverá ser devolvido ao Fed com seus correspondentes juros e, enquanto isto, o banco central americano poderá tomar decisões no seio da companhia como suspender a divisão de dividendos ou a venda de ativos, o que, com o tempo, poderia se transformar em uma operação muito rentável.

Desta forma, o resgate da AIG evita aquela que seria a maior quebra da história segundo os analistas, mas também permitirá a Washington controlar uma das maiores seguradoras do mundo.

"Em dez dias, o Governo se envolveu em resgates para o setor imobiliário (Fannie Mae e Freddie Mac) e de seguros (AIG), enquanto Wall Street via como dois de seus últimos quatro bancos de investimento independentes (Lehman Brothers e Merrill Lynch) caíam", afirmou o "The Wall Street Journal".

Em qualquer caso, a decisão de resgatar a AIG dá uma demonstração do papel que esta entidade desempenha no sistema financeiro internacional, cuja dívida foi comprada por bancos e instituições de todo o mundo, que agora vêem sua cobrança correr perigo.

No entanto, as apólices de seguros da AIG não têm tanto risco, pois são emitidas por entidades independentes e sua atividade está altamente regulada na maior parte do mundo, como esclareceu a seguradora em seu primeiro comunicado público desde que começou sua queda na bolsa. EFE mgl/fal