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O dólar subiu ontem pelo sexto dia seguido e superou, pela primeira vez em três anos e meio, a marca de R$ 2,50. A alta de 1,78% levou a moeda americana para R$ 2,519, maior cotação desde 29 de abril de 2005.

Em 2008, o ganho é de 41,9%.

Diferentemente do que ocorreu na quarta-feira, o Banco Central (BC) não interveio no mercado. A única operação realizada pela autoridade monetária ocorreu após o encerramento dos negócios, o que não é usual e surpreendeu analistas. O BC vendeu o equivalente a US$ 314,6 milhões em contratos de swap cambial, um tipo de papel no qual a instituição é remunerada pela variação da taxa de juros e a contraparte (mercado), pela trajetória do dólar.

Desde que o banco de investimentos americano Lehman Brothers pediu concordata, no dia 15 de setembro (o que agravou a crise global), o dólar avançou 40% em relação ao real. É um porcentual superior ao de países que, como o Brasil, são exportadores de commodities.

O ganho da moeda americana é de 28% ante o dólar australiano e de 26% ante o peso chileno e o dólar neozelandês. Em relação à lira da Turquia - país emergente que não é exportador de commodity, mas costuma ser usado para comparações com o Brasil -, a valorização do dólar também é de 26%.

O vice-presidente da mesa de operações do Banco WestLB, Alexandre Ferreira, explicou que o real tem acompanhado de perto o índice que mede a evolução dos preços das commodities, conhecido como CRB.

De 15 de setembro até ontem, o indicador perdeu 65%. Um índice derivado do principal, que exclui commodities do setor energético, desvalorizou 43% no período. Portanto, explicou Ferreira, a queda das commodities é um dos fatores que explicam a expressiva desvalorização do real.

As razões, porém, não param aí. Ferreira avalia que o BC deveria ser mais agressivo nas intervenções no mercado. "Não se trata de impor uma cotação para o dólar, mas o País tem US$ 200 bilhões em reservas e o BC deveria dar liquidez para os investidores que querem deixar o País", defendeu.

O presidente BC, Henrique Meirelles, disse ontem que a autoridade monetária já vendeu US$ 6,7 bilhões em dinheiro vivo entre outubro e o fim de novembro. A instituição, afirmou ele, também colocou US$ 11,7 bilhões em operações de compra com compromisso de revenda, nas quais o dólar volta para os cofres do governo. O total vendido em swaps cambiais chegou a US$ 31,1 bilhões.

Outro fator que tem pressionado para baixo a moeda brasileira é o calendário. Normalmente, nos meses de dezembro, multinacionais enviam dólares ao exterior por causa do fechamento do caixa anual. Além disso, explicou Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset, companhias brasileiras que fizeram operações no mercado futuro de câmbio (os chamados derivativos cambiais) estão tentando "limpar" seus balanços.

Aliás, o fantasma dos derivativos tóxicos sempre volta a rondar o mercado quando o dólar engata uma tendência de forte alta, como agora. A exposição total das companhias a esse tipo de operação caiu em relação ao nível original - estima-se que hoje sejam US$ 55 bilhões, ante US$ 98 bilhões no dia 30 de setembro. Mesmo assim, a elevação da moeda americana produz uma corrida ao mercado daqueles que estão expostos à variação cambial.

Na avaliação de Póvoa, o mercado está buscando um novo nível para o dólar. O problema, tanto para ele quanto para a maioria dos especialistas, é que ninguém ainda tem uma idéia de qual seria. "Há uma nova realidade no balanço de pagamentos brasileiro (que mede as transações do País com o exterior e inclui, entre outros pontos, as balanças comercial e de serviços)", observou. "Hoje, a (perspectiva para a) balança comercial é um grande ponto de interrogação."

O principal efeito do dólar na vida das pessoas se dá nos índices de inflação. Estima-se que cada 10% de valorização da moeda americana provoque alta de um ponto porcentual nos preços ao consumidor. Se essa regra se confirmar agora, os IPCs poderiam ter elevação de até quatro pontos porcentuais nos próximos meses.

Alguns analistas ponderam, no entanto, que dificilmente essa alta será repassada de forma integral, por causa da queda das commodities no exterior e da desaceleração da atividade econômica no Brasil.