Depois de sobreviver a três grandes crises, o mercado financeiro brasileiro foi posto à prova novamente pela turbulência global. Mesmo mais maduro em relação aos anos 90, o índice Bovespa (Ibovespa) ontem ultrapassou a marca dos 10% de queda lançou mão do circuit breaker - parada no pregão por trinta minutos - pela primeira vez desde que foi adotado o sistema de câmbio flutuante no País.

Uma queda tão abrupta não era vista na bolsa desde 14 de janeiro de 1999, no auge da crise cambial.

Segundo especialistas, isso ocorre porque quem dita a direção do Ibovespa é o investidor estrangeiro, que tem saído do País para cobrir perdas no exterior - o mesmo que garantiu o aumento da liquidez da Bovespa e o sucesso da abertura de capitais das empresas brasileiras, comprando uma média de 70% das ações oferecidas nas ofertas iniciais.

A vinda do capital externo foi acentuada com a maior integração da bolsa ao mercado internacional. Com isso, a bolsa ganhou musculatura, dando menos espaço à manipulação por poucos especuladores. Mas ao mesmo tempo ficou mais vulnerável às oscilações internacionais. Por outro lado, o nível de concentração dos negócios do Ibovespa é menor. Assim, a queda dos mercados é melhor absorvida.

Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora Souza Barros, afirmou que no Brasil, mesmo com a evolução dos últimos anos, como a maior parte das operações na bolsa está nas mãos de estrangeiros e de fundos, em momentos como o de hoje, a saída maciça desses investidores torna o circuit breaker inevitável como ocorreu no passado, dez vezes.

O primeiro circuit breaker ocorreu em 1997, no auge da crise da Ásia. O período de turbulência começou com a desvalorização cambial na Tailândia que em pouco tempo contaminou outros países da região, como Malásia, Indonésia, Cingapura e Coréia do Sul, colocando em risco as economias emergentes. A fuga de capitais no mundo para cobrir prejuízos atingiu o mercado financeiro brasileiro. Em 28 de outubro, a queda do Ibovespa superou 10% e o mercado foi apresentado ao circuit breaker da Bovespa.

Para se defender, o Brasil lançou um pacote batizado de Pacote 51, pelo número de medidas que continha prevendo a criação de receitas adicionais e o corte de despesas. O País deixou a desejar nas despesas e ficou vulnerável. Em 1997, o pregão da Bovespa foi interrompido três vezes.

No ano seguinte, a Rússia entrou em crise, após a desvalorização da moeda local e a decretação da moratória. Sem ter feito a lição de casa no ano anterior, o Brasil tornou-se alvo de especulação e teve de recorrer a um socorro junto a organismos internacionais, como Fundo Monetário Internacional, Bando Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Naquele ano, o pregão da Bovespa foi interrompido cinco vezes, sendo que em 10 de setembro parou duas vezes no mesmo dia. Em 1999, a fuga de capital estrangeiro deixou a política cambial doméstica insustentável. Começou o ataque especulativo contra o real, o pregão da Bovespa voltou a parar - 13 e 14 de janeiro - e o Banco Central adotou o câmbio flutuante.

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