O grande esporte dos anos 30 do século passado foi o jogo de arruinar o vizinho. Os governos fizeram isso manipulando o câmbio e impondo barreiras ao comércio.

O resultado foi mais crise e mais desemprego. O nome do jogo - beggar the neighbour, em inglês - foi citado muitas vezes na reunião do Fórum Econômico Mundial, na semana passada, sempre acompanhado de um alerta: o protecionismo está em alta e, se não for detido, agravará a recessão global.

O comércio não é a causa dos problemas atuais, mas pode ser parte da solução, disseram, em diferentes momentos, o chanceler brasileiro Celso Amorim e o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. O intercâmbio de bens e serviços, lembrou Lamy, tem um tremendo poder de multiplicação de renda e de empregos. Mas, em tempos de crise, a tendência comum de empresários, sindicalistas e políticos é pressionar por mais barreiras protecionistas e por outras medidas com potencial para distorcer o comércio.

Curiosamente, como observou Amorim, os organizadores da reunião anual do Fórum dedicaram muitas sessões à discussão da crise financeira e pouquíssimas ao debate dos temas comerciais. A mais interessante foi também uma das últimas do programa, no fim da tarde de sábado.

Naquela altura, no entanto, ministros encarregados de comércio já haviam feito uma reunião paralela, no maior hotel de Davos. A anfitriã foi a ministra da Economia e do Comércio da Suíça, Doris Leuthard, e o coordenador, como sempre, foi o diretor-geral da OMC.

Nos últimos anos, vários encontros informais de ministros ocorreram em Davos, na semana da reunião anual do Fórum, sempre com o objetivo de impulsionar -- em geral de desencalhar - a Rodada Doha de negociações comerciais. Em alguns desses encontros, chegou-se a marcar prazos para a conclusão da rodada. O esforço não deu certo e o último impasse ocorreu no segundo semestre do ano passado. Um dos principais complicadores foi a decisão de alguns governos - da Índia e de vários produtores agrícolas de baixa competitividade - de exigir salvaguardas especiais contra a importação. Além disso, houve dificuldades de entendimento entre governos do mundo rico e de alguns emergentes a respeito da redução de tarifas sobre produtos industriais.

Chegou-se a pensar numa reunião de ministros em dezembro, numa tentativa de consolidar os avanços da rodada antes da posse do novo presidente americano. Lamy consultou vários governos e, com realismo, desistiu da ideia.

Como lembrou Leuthard, a negociação foi interrompida quando já se havia chegado muito perto de um entendimento sobre as chamadas modalidades - as bases mais importantes da negociação.

Modalidades incluem, por exemplo, a eliminação de subsídios à exportação de produtos agrícolas, a redução de subsídios internos e a redução de tarifas de importação para todas as classes de produtos.

Montado esse quebra-cabeças, o resto é politicamente mais fácil, embora a tarefa ainda envolva muitos detalhes técnicos.

Em 2008 já se havia chegado a um entendimento sobre vários pontos importantes das modalidades. O valor efetivo desse pacote foi realçado pela crise. Antes da recessão global, os detalhes acordados podiam parecer conquistas muito incompletas e insuficientes para um acordo relevante. Com o aprofundamento da crise, a importância real dessas conquistas fica muito mais evidente, como sustentaram Amorim, Lamy e Leuthard. Se esses pontos já estivessem valendo como regras, as tarifas alfandegárias estariam em queda e os obstáculos ao comércio seriam muito menores. Além disso, os governos, ao preparar pacotes contra a crise, teriam de respeitar regras comerciais mais estritas que as de hoje.

Este é um dos alertas mais importantes lançados durante as discussões em Davos. Ainda há espaço considerável para a criação de barreiras sem violação das normas internacionais de comércio. Com o pacote em vigor, o espaço para elevação de barreiras seria menor. Segundo as contas de Lamy, a receita de impostos sobre a importação seria, globalmente, reduzida à metade. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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