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GENEBRA - A Rodada Doha está por um fio, avisou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, por volta de 1h da manhã desta terça-feira, em meio à batalha travada principalmente entre a Índia e a China, de um lado, e os Estados Unidos, de outro, sobre um mecanismo exigido pelos dois emergentes para frear importações agrícolas.

A negociação para liberalizar o comércio global chegou praticamente a morrer por volta das 17h de segunda-feira, quando a Índia queria reabrir o pacote proposto por Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), e os EUA recusavam. Com intermediações do Brasil, União Européia (UE) e Austrália, voltou a agonizar. Por volta da meia-noite, altos funcionários da OMC circulavam pela sala de imprensa, visivelmente em preparação para o anúncio oficial do o funeral da rodada. Até que enfim, nesta madrugada, os ministros decidiram continuar as discussões hoje.

Lamy tenta segurar a negociação insistindo junto aos ministros que os países já colocaram muito no bolso e que não vale a pena destruir tudo por causa de um único tema, justamente de barreira de importação.

Uma aterrissagem suave foi proposta por alguns países, significando empurrar a negociação para setembro. O Brasil foi um dos países que recusou, dizendo que isso não tinha sentido, pois significava já desistir da rodada. Para o Brasil, se hoje é difícil negociar com o governo Bush a seis meses de seu fim, será quase impossível a três meses antes do novo governo assumir a Casa Branca.

Kamal Nath, apontado como o principal culpado, deixou a OMC declarando-se otimista , mas alertou que não era questão de concordar ou rejeitar, e sim de examinar propostas hoje. O fato de a salvaguarda para congelar importações agrícolas ser o ponto crucial, quando existe uma crise alimentar na qual importadores baixam tarifas, demonstrou o que não era segredo: que a Índia e alguns outros países tem pouca vontade de fechar o acordo global.

O comissário europeu de Comércio, Peter Mandelson, disse que a questão de salvaguardas era muito, muito sensível. O porta-voz da OMC, Keith Rockwell, reconheceu que a situação é muito tensa e bastante incerta. Para Amorim, a negociação está por fio, em estado crítico. Nesse cenário, o Brasil propôs, com apoio da Austrália e UE, uma solução para ressuscitá-la e as negociações foram retomadas em nível técnico. Nath disse mais tarde que aceitara um compromisso e acusou os EUA de terem sido o único a recusar.

Segundo os indianos, a idéia proposta por Lamy era de jogar no lixo tudo sobre a salvaguarda especial contida no pacote. Em contrapartida, os países em desenvolvimento teriam sinal verde para aplicar sobretaxa na importação sob certas condições: notificar a OMC, passar por exame no comitê de especialistas e, o mais importante, mostrar que o produtor doméstico é afetado pelas importações. Nova Déli disse ok, mas Schwab recusou.

A expressão facial de alguns negociadores e funcionários da OMC era de cansaço e decepção. Persistia também o choque de personalidades. A americana Susan Schwab mostrava-se muito dura. Quando a negociação ficou interrompida, à tarde, ela desceu para fazer uma declaração a imprensa, acusando Índia e China de emperrarem a negociação e a levarem à beira do fiasco.

Amorim era reconhecido como uma espécie de estabilizador, o indiano Nath, sempre de olho em seu futuro político, o australiano Simon Creen , abrasivo . Os ministros chinês e japonês pareciam perdidos, na tradução e no que se passava em volta deles. O chinês continuava lendo seus textos preparados com antecedência, endurecendo a posição também contra acordos setoriais na área industrial, quando Pequim é apontado justamente como um dos ganhadores da liberalização no setor.

Uruguai e Paraguai anunciaram em coletiva a uma centena de jornalistas que não aceitarão uma salvaguarda que possa adotar sobretaxa no acordo de Doha que seja acima da tarifa acertada na Rodada Uruguai (1987-1994). Os dois sócios do Mercosul tinham o solitário apoio da Costa Rica. A salvaguarda poderá ser usada por países em desenvolvimento com agricultura frágil, desde que as importações cresçam 40% em três anos.

A Índia acha que esse teto é demais, e queria baixá-lo. Além disso, achava pouco a sobretaxa de 15%, além de procurar aumentar a cobertura da salvaguarda de 2,5% para 7% das linhas tarifárias agrícolas. Para o Uruguai, ela certamente não será aplicada sobre as importações procedentes de países desenvolvidos, graças ao poder político desses para impedir que seus produtores sejam afetados.

O agronegócio brasileiro tampouco gostou da concessão que o governo fez para a Índia, aceitando o rompimento do teto tarifário fixado na Rodada Uruguai, mas preferiu esperar o desenrolar das negociações para reagir.

À 1h desta manhã, indagado pelo telefone celular se a negociação tinha acabado, um alto negociador respondeu: not yet (não ainda). Esta manhã, altos funcionários tentarão de novo uma solução técnica para a salvaguarda, depois os ministros voltam a se sentar para negociar ou dizer adeus.

(Assis Moreira | Valor Econômico)

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