Proposta do iReport é publicar notícias sem edição Por Lucas Pretti São Paulo, 17 (AE) - Apesar de ter dominado as mesas de discussão do seminário MediaOn, na semana passada, não é de hoje que se discute o jornalismo cidadão - aquele em que o leitor, ouvinte e espectador tem papel central na captação e distribuição de notícias. Mais precisamente desde 2003, quando o termo foi cunhado pelos norte-americanos Shayne Bowman e Chris Willis, do The American Press Institute.

Também vem dos EUA o exemplo mais radical dessa prática, executado pela rede CNN com uma característica inédita: no iReport.com, não há qualquer filtro ou edição sobre o material postado por usuários.

Lançado em fevereiro, o site evoluiu do modelo antes hospedado no CNN.com, um espaço em que internautas enviavam vídeos, fotos e textos como complementos a reportagens. Agora, o material enviado não apenas ajuda na apuração, mas define os assuntos a serem abordados nos noticiários mundiais da rede. A estrutura do jornalismo da CNN mudou: há repórteres, editores, produtores, chefes de reportagem e... os internautas (ou iReporters). Há cerca de 15 mil contribuições de espectadores por mês - e boa parte delas é usada na televisão e ganham a tarja "on CNN" no site. No Brasil, nenhum grande jornal ou portal se arriscou a tanto.

A ousadia carrega riscos, como atrelar a credibilidade e a imagem da marca CNN a conteúdos que podem ser promocionais, chulos ou até conter ataques sem provas a determinada pessoa.

De acordo com a produtora-sênior Lila King, responsável pelo iReport.com, a comunidade que se fornou em torno do site impede abusos e anomalias. "Há uma seleção natural. Material com outras intenções acaba indo para o fim da lista", disse ao Link na sede brasileira da Turner, o conglomerado de mídia que controla a CNN.

A moderação de conteúdo pela comunidade não é inovação da rede de televisão. Sites de compartilhamento de notícias, como o Digg, já usam o sistema desde 2004, quando ajudaram a forjar o termo web 2.0. O ranking das notícias mais populares do dia, presente nos Diggs da vida, também foi adotado pela CNN com o nome de "Newsiest Now". É uma das principais fontes de pautas da rede.

"Monitoramos o dia inteiro os assuntos que os usuários estão comentando. Todos os dias há surpresas e reportagens que nunca sairiam da cabeça dos jornalistas da CNN", afirma Lila. A pergunta a seguir, então, é lógica: qualquer pessoa pode ser jornalista? "Não diria isso. Mas nós acreditamos que qualquer pessoa pode ajudar muito no processo de produção jornalística, reportando fatos que acontecem ao redor dela."
Nos EUA e em vários países, não é necessário se graduar em jornalismo para exercer a profissão, como ocorre no Brasil. A própria Lila King tem diplomas em filosofia e literatura comparada. Por isso, a CNN tem um tutorial online para "ensinar" técnicas jornalísticas a pessoas com outras formações, como gravação de vídeos, fotos e estilo de texto, além de dicas para identificar "uma boa história".

O resultado é digno das boas redações de jornal. Veio de um iReporter um furo de reportagem sobre o massacre da Universidade Virginia Tech, em 2007, quando o estudante Cho Seung-hui matou 32 pessoas nos EUA. Um vídeo do momento do crime foi captado por celular e enviado à CNN, que veiculou na televisão. Dá para dizer, hoje, que a CNN tem o maior time de repórteres do mundo.

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