BRASÍLIA - O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou ontem a intenção de criar uma linha de crédito no valor de US$ 110 bilhões para estimular o comércio entre os países. O anúncio foi feito durante entrevista coletiva ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio da Alvorada, em Brasília.

Segundo Brown, a crise econômica cortou as linhas de crédito internacional e é importante que as fontes de financiamento sejam retomadas. " Sem crédito, a economia vai atrofiar " , concordou Lula.

Esta será uma das propostas a serem levadas pela Grã-Bretanha para a reunião do G-20, marcada para o próximo dia 2, em Londres. A proposta de criação de uma linha de crédito para financiamento internacional também foi defendida pelo governo brasileiro. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o Brasil precisa analisar de quanto será a contribuição do país e os mecanismo pelo qual ela será feita. " O ministro Mantega (Guido Mantega, da Fazenda) deixou claro que a contribuição não pode afetar as reservas brasileiras " , lembrou.

Outra sugestão que será levada pelos dois governantes é a intensificação da campanha contra o protecionismo. Brown defendeu que " seja dado nomes aos bois dos países que praticam protecionismo, incluindo a apresentação de representações contra eles na Organização Mundial do Comércio (OMC) " .

Lula afirmou que até entende que os governantes pensem primeiro em seus países em um momento de crise. Mas comparou o protecionismo a uma droga. " As duas provocam uma euforia no começo, mas é passageira. Depois vem a depressão. E no caso da economia, isto significa mais recessão, mais desemprego e mais instabilidade " , acrescentou Lula.

O presidente brasileiro definiu o encontro do G-20 na próxima semana como um " encontro político " . Disse esperar que os técnicos ajudem os governantes a tomarem as decisões corretas, mas que chegou o momento de os líderes mundiais se posicionarem diante da crise. " Será o momento das grandes decisões políticas " , declarou.

Brown lembrou que, pela primeira vez em 30 anos, haverá uma retração no nível comercial mundial. Citou números como a queda de 24% da balança comercial chinesa, de 21% na Alemanha e de mais de 40% no Japão. " O Consenso de Washington morreu, precisamos estabelecer uma nova arquitetura financeira internacional " .

Os dois governantes tiveram posições divergentes em relação ao pacote de US$ 1 trilhão anunciado esta semana pelo presidente americano Barack Obama. O objetivo é limpar o mercado dos chamados ativos tóxicos, mas alguns analistas teriam achado que esta era uma maneira tangencial de se evitar a discussão sobre a regulação dos mercados. " Eu acho saudável que o governo americano apresente um plano para lidar com os ativos tóxicos uma semana antes da reunião do G-20. De qualquer maneira, Obama prometeu uma outra ação para promover a regulação dos bancos e dos mercados " , justificou o primeiro-ministro britânico.

Lula foi bem mais reticente. Disse que as diversas crises enfrentadas pelo Brasil fizeram com que os " ativos tóxicos fossem chamados por aqui de títulos podres " . Buscou ser cauteloso, ao declarar que " não comenta decisões soberanas tomadas por governantes de outros países " . Mas completou: " Eu acho que se a compra desses títulos significasse que esse US$ 1 trilhão iria voltar para a economia e financiar o comércio externo e interno, seria ótimo. Não sei se virá " .

Lula ainda teve que enfrentar constrangimento diante da pergunta de um jornalista inglês. Durante o discurso, o presidente brasileiro repetiu a tese de que a crise foi gerada pelas nações do primeiro mundo, por " banqueiros louros e de olhos azuis " , e que não é justo que ela venha prejudicar os negros e os índios e os imigrantes, que cruzam o mundo em busca de oportunidades de trabalho e renda. O jornalista indagou se por trás desta informação não estava um viés ideológico. " Não existe nenhum viés ideológico. Existe a constatação de um fato. Um fato que as fotografias dos jornais mostram todos os dias, que a televisão mostra todos os dias. Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que não é possível que essa parte da humanidade, que é a mais, eu diria, vítima do mundo, pague por uma crise. Não é possível " .

(Paulo de Tarso Lyra | Valor Econômico)

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