A dois meses do Natal, poucos arriscam um palpite sobre como as vendas vão se comportar. Alguns especialistas dizem que o consumidor brasileiro vai pensar duas vezes antes de aumentar o endividamento.

Outros, como o presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio), Abram Szajman, acreditam que ainda será possível surfar na onda do crescimento do emprego e da renda e fechar o ano com um crescimento das vendas. Mas ele recomenda aos lojistas cautela, principalmente com relação aos estoques e à oferta de crédito.

O comércio já sente os reflexos da turbulência?

De uma forma ou de outra, todos já estamos sentindo os reflexos dessa crise, que é a mais grave da era da globalização. Não há imunidades: qualquer empresa pode ser afetada de várias formas, seja pela bolsa de valores, pela restrição de crédito ou por operações de câmbio. Esses efeitos ainda não são preocupantes, a não ser em casos pontuais. Percebe-se retração do consumo em alguns segmentos, mas apenas as pesquisas feitas a partir de setembro, quando a crise se aprofundou, poderão mensurar os impactos com mais precisão. Os dados que temos até o momento não mostram alterações significativas, o que poderá ocorrer nas pesquisas que serão divulgadas entre novembro e dezembro. Mas é evidente que ninguém vai escapar de uma crise tão profunda e tão abrangente, nem o comércio.

Quais devem ser os primeiros reflexos no dia a dia da vida dos comerciantes? Redução do crédito, aumento dos juros, demissões, aumento de preços?

Os primeiros reflexos - que inclusive já se notam - são as restrições de linhas de crédito, que provocam alta dos juros. O consumidor ainda não sentiu de forma incisiva esses efeitos, pois o varejo tende a absorver parte do impacto e a não repassar os aumentos, mantendo o máximo de normalidade no financiamento aos seus consumidores. Mas há limites para isso: em algum momento os prazos podem se reduzir e as linhas de crédito podem se tornar mais seletivas. Para complicar o cenário, as autoridades econômicas estão agindo de uma forma paradoxal: ao mesmo tempo em que disponibilizam recursos por meio de redução de compulsórios e de linhas cambiais, acenam com novas elevações de juros, o que complica a avaliação do potencial impacto para o crédito à pessoa física.

O consumidor está com medo de continuar no mesmo ritmo de gastos?

Em termos. Com relação à euforia percebida no início do ano, o consumidor está mais pessimista, sim. Algumas empresas, antecipando-se, começaram a dar férias coletivas, rever projetos de investimento, reduzir projeções de crescimento, e essas informações vão lentamente chegando aos consumidores - que também são empregados em algumas dessas empresas. É natural esperar que as pessoas ao menos aguardem mais informações sobre as perspectivas antes de tomarem novas decisões de consumo, principalmente por meio do crédito de longo prazo. No médio prazo o ambiente pode estar desanuviado, o que tende a normalizar as ações dos consumidores. Provavelmente 2009 será um ano de crescimento mais fraco no Brasil, mas não devemos nos guiar por conclusões tiradas em meio ao furacão. Pode ser que o consumidor decida fazer um aperto maior do que o necessário apenas por não ter entendido ainda a magnitude da crise. Isso seria natural, pois nem mesmo os especialistas estão conseguindo entender direito o que se passa.

O Natal será o grande termômetro do que vem por aí ou as vendas de fim de ano estão garantidas?

Sem dúvida esse Natal é de grande expectativa para todos. Analistas, varejistas, todos queremos saber de fato quanto essa crise afetou o bolso e, principalmente, as expectativas dos consumidores. Será um excelente termômetro. Vale ressaltar que, da mesma forma que em outros anos, grande parte do desempenho ainda deriva das condições de crédito. Aparentemente o Natal de 2008 será construído com um volume absoluto de crédito maior do que em 2007. Também o emprego e a renda, em termos comparativos, estão maiores agora do que há um ano. Mas, além do crédito, do emprego e da renda, as vendas dependem também do ânimo do consumidor. Vamos descobrir no Natal qual efeito é mais forte: o aumento do crédito, renda e emprego ou as perspectivas negativas para 2009. Tenho um palpite: ganha o lado emprego e renda.

O que a Fecomercio recomenda aos empresários do setor para que, na medida do possível, mantenham os negócios no mesmo ritmo?

Esse tipo de recomendação é muito complexa. A Fecomercio recomenda sempre que o empresário aja com cautela, mas não com medo. Que busque as melhores condições de financiamento para seu negócio e para seus clientes, que concorra em seus mercados de forma leal, que conserve os empregos na medida do possível, que se mantenha na formalidade. A Fecomercio reconhece o esforço do varejista em um ambiente de negócios onde as regras mudam diariamente e os tributos avançam sobre os empresários. Mas dizer como o varejista deve tocar seu negócio é muito complicado, pois não temos informações de cada empresa, cruciais para uma tomada de decisão que depende de fatores como: necessidade de caixa, posição dos ativos, estoques, contas a pagar, qualidade dos recebíveis, entre outros. Também não sabemos as estratégias de cada empresa: crescer, aumentar a sua participação no mercado (market share), elevar a margem, trocar margem de lucro por participação de mercado, resguardar caixa, investir mais. O momento recomenda um pouco mais de cautela no crédito, mas não de forma a inviabilizar as vendas. Um pouco mais de conservadorismo com relação à formação de estoques e um olhar mais crítico com relação à perspectiva de crescimento em 2009.

As pequenas e médias empresas, que têm mais dificuldade de acesso ao crédito, podem sofrer menos os efeitos da crise?

Ao contrário. Evidentemente, quem estiver mais longe das linhas de crédito será o primeiro a sofrer com o provável represamento de liquidez. Grandes bancos e empresas tenderão a ser mais seletivos na distribuição de recursos e exigirão garantias que em grande parte pequenas e médias empresas não têm como oferecer. Essa hipótese seria verdadeira se as empresas que operam apenas com capital próprio estivessem hoje em melhores condições do que aquelas que operam alavancadas. Dificilmente quem opera com capital próprio tem condições de financiar seus clientes em pé de igualdade com as grandes redes. Acredito que haja uma confusão no mercado. Se uma empresa estiver muito alavancada, com pouca liquidez e sem capital de giro, no momento de restrição de crédito sua posição pode ser fatal, e isso é mais provável para algumas grandes empresas. Mas essa não é a regra e sim a exceção.

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