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Presidente da Alstom defende empresa de acusações; leia íntegra

SÃO PAULO - O presidente mundial da francesa Alstom, Patrick Kron, disse hoje ao Valor que uma auditoria interna realizada pela empresa não constatou indícios de pagamentos de propinas ou de corrupção, mas que, se a Justiça suíça encontrar algo, tomará as medidas cabíveis. Fomos condenados sem termos sido julgados, disse Kron. Não encontramos desvios ou infrações nos contratos, inclusive nos do Brasil, explicou o francês.

Valor Online |

  • Alstom assina novo contrato de 280 milhões de euros com o Metrô de SP
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    O executivo está no Brasil desde ontem, para fechar contratos nas áreas de transportes metroviários e eletricidade. Também aproveita para manter contatos com funcionários e com órgãos de imprensa a fim de esclarecer a posição da Alstom frente às acusações de que a empresa pagou suborno no passado para conseguir contratos. A empresa não pretende nem um pouco renunciar às suas responsabilidades, disse Kron, na primeira entrevista sobre o assunto desde que a investigação se tornou pública, há cerca de dois meses.

    O caso começou em 2004, quando auditores da KPMG, a serviço da Comissão Federal Bancária da Suíça, descobriram documentos que detalhavam transferência de recursos da Alstom para empresas fantasmas na Suíça e em Liechtenstein. As investigações ainda não foram concluídas, mas Kron reforça que a auditoria interna feita pela empresa não encontrou indícios de irregularidades.

    Durante a entrevista, o presidente da Alstom reclamou da maneira como a empresa vem sendo tratada em órgãos de imprensa e deu claros sinais de que está preocupado com a repercussão da investigação. Kron ressaltou que a Alstom está no Brasil há 50 anos e que emprega 4 mil pessoas no país. Vamos continuar participando do desenvolvimento do país, garantiu.

    Nesse sentido, a multinacional fechou na noite de ontem um contrato de 280 milhões de euros com o Metrô de São Paulo para fornecer o sistema de controle automatizado para as linhas 1, 2 e 3 - o maior projeto de sinalização já conquistado pela Alstom, segundo o executivo.

    Outra unidade do grupo, a Alstom Hydro, formou uma joint venture com a brasileira Bardella para fornecer equipamentos às hidrelétricas do Rio Madeira. Cada uma das companhias terá 50% da nova empresa, chamada de Indústria Metalúrgica e Mecânica da Amazônia (IMMA). A planta ficará em Rondônia e sua instalação deverá consumir investimentos de 30 milhões de euros.

    A seguir, leia os principais trechos do depoimento de Patrick Kron colhido pela jornalista Raquel Balarin:
    Há cerca de mais ou menos dois meses, o nome da Alstom tem sido todos os dias associado a práticas ligadas a acusações de corrupção que eu condeno totalmente e que não são toleradas na nossa empresa. A extensão que foi dada a este assunto e a maneira como as coisas vêm sendo tratadas me parecem ultrapassar todos os limites razoáveis e afetam seriamente a nossa reputação, com impacto negativo sobre os nossos funcionários. Perturbam alguns clientes que confiam em nós há décadas. Então, eu também vim aqui, para expressar minha preocupação. Vim dizer que a Alstom não tem uma doença vergonhosa, não corrompe agentes públicos. Vim dizer que a Alstom deve ser tratada de maneira justa e equilibrada, baseando-se em fatos e não em alegações, e levando em consideração a posição que nós ocupamos no Brasil.

    É preciso lembrar dos fatos. Atualmente há um inquérito, realizado pela Justiça suíça, com apoio da Justiça Francesa. Isso tudo se refere às atividades de um empresário suíço. Esse empresário teria tido relações com uma empresa chamada Cegelec, na década de 90, que foi comprada pela Alstom em 1998 e depois foi vendida novamente em 2001. Antes das publicações, eu não conhecia esse empresário suíço, nem as pessoas que foram mencionadas, e leio acusações contra a nossa empresa. Tomei a decisão de colaborar plenamente com as autoridades judiciais e, sendo assim, nos planos técnico e jurídico resolvemos nos incluir entre os queixosos nesse processo civil (litisconsorte). Fizemos isso para termos acesso aos dossiês do processo e, por outro lado, para defendermos o nome da nossa companhia. Se forem cometidos atos repreensíveis, a Justiça vai descobrir e vai dizer. Esses fatos prejudicam a nossa empresa e, por isso, é legítimo que a nossa empresa procure se defender e exigir reparação.

    A empresa não pretende nenhum pouco renunciar às suas responsabilidades. O que acontece é que há um inquérito judicial na Suíça. E o juiz suíço diz que vai concluir o inquérito nas próximas semanas. Neste exato momento, nenhum dirigente da empresa atual ou passado foi indiciado ou considerado culpado de coisa alguma. Nós mesmos, em total transparência para com os juízes, fizemos uma auditoria interna. Não posso entrar no detalhamento dessa auditoria porque tudo isso faz parte do processo que está em andamento e a última palavra tem de vir da Justiça. O que posso adiantar é que os resultados obtidos até aqui nessa investigação não confirmam de forma alguma a história que o Wall Street Journal tentou construir de que a Alstom teria montado um esquema de corrupção para conseguir contratos. Não encontramos nenhum desvio ou infração às regras de ética da Alstom, por exemplo, nos contratos brasileiros que foram citados no Wall Street Journal. Entre os contatos, por exemplo, com o Metrô de São Paulo - que, aliás, também fez um inquérito próprio e não creio que tenha concluído nada repreensível em relação à Alstom. Eu gostaria que me mostrassem o contrato de US$ 45 milhões citado pelo WSJ e que foi obtido através de US$ 6 milhões de propina. E eu gostaria que me mostrassem também o contrato da hidrelétrica de Ita. Em relação a esse contrato, estão nos acusando de ter pago centenas de milhões de dólares de propinas, enquanto a empresa é 100% privada, particular. De qualquer forma, o contrato relativo à Alstom, não ultrapassava US$ 90 milhões. Então, procederam com insinuações.

    Fomos condenados sem termos sido julgados e sem nem termos tido a possibilidade de nos defender. Chegaram ao ponto, inclusive, de somar todos os contratos que tivemos no Brasil para dar a impressão de que eles só poderiam ter sido obtidos a partir de atos de corrupção. A realidade é bem mais simples. Nós estamos presentes no Brasil há mais de 50 anos. Empregamos aqui 4 mil pessoas. No ano passado, contratamos 800 pessoas e, neste ano, vamos contratar um número bastante grande mais uma vez. Construímos mais de 50% da capacidade de geração elétrica do país. Cerca de 80% das pessoas que usam o Metrô utilizam o nosso equipamento. Por quê? Porque somos o único fabricante brasileiro de equipamento ferroviário e equipamento de sinalização. Porque compramos uma empresa brasileira falida - a Mafersa -, investimos, recuperamos a empresa, salvamos a fábrica da Lapa e atualmente empregamos nessa unidade 1,8 mil pessoas. Em um período difícil da economia brasileira, de 2000 a 2005, ficamos aqui. Nossas fábricas funcionavam, sendo que 90% da nossa produção tinha que ser exportada.

    Além do mais vamos anunciar hoje, a assinatura ontem à noite, de um dos contratos de sinalização mais importantes já fechados pela Alstom. Esse contrato foi assinado com o Estado de São Paulo, para a modernização fundamental da sinalização das linhas 1,2 e 3 do Metrô. É um contrato de 280 milhões de euros e muito importante tanto em termos de volume, como de seu conteúdo tecnológico. Vamos anunciar também uma joint venture no setor de hidroeletricidade com um parceiro brasileiro que se chama Bardella, para a construção na Amazônia de uma central que vai fabricar turbinas para os projetos hidrelétricos do Rio Madeira e outros, uma vez que fomos escolhidos pela Odebrecht para participar do consórcio nesse projeto do Madeira. Vamos investir várias dezenas de milhões de reais, vamos empregar 300 pessoas inicialmente e continuar a participar do desenvolvimento do país. Não tenho a menor intenção de permitir que acusações infundadas possam ameaçar essa estratégia de desenvolvimento.

    Na auditoria que fizemos, não encontramos nenhum elemento que nos permitisse pensar que possa ter havido malversação. A Justiça está fazendo um inquérito. A Justiça francesa está em contato com a Justiça brasileira, todos estão fazendo um inquérito. Se houve alguma malversação, eles vão se pronunciar a respeito. Estamos falando de negócios da década de 90, de empresas que foram revendidas, pessoas que eu não conheço e que também saíram da empresa. Nós veremos. Se houver coisas criticáveis, elas serão identificadas e serão punidas. Temos cooperação total com todas as Justiças. A pior das situações são as insinuações. Não quero que nossos clientes pensem que vão ser arriscar tendo negociações com a Alstom e felizmente há exemplos que provam que isso não está acontecendo.

    Temos um código de ética, respeitamos as leis internacionais e isso se aplica a todas as nossas atividades, na China, no Brasil e em qualquer lugar. Mas eu verifico de fato que a tensão na mídia é muito maior no Brasil do que nos outros países, no momento atual. Se alguém tem interesse nisso, eu não posso saber.

    Não estava na Alstom na década de 90. Cheguei à presidência em 2003, mas isso não tem nada a ver. Tudo o que aconteça com a empresa é de minha responsabilidade.

    Eu não posso especular sobre o que vai acontecer, se uma pessoa for culpada ou não. Por outro lado, sendo uma parte civil importante do processo, tudo o que se refere à Alstom e à reputação da Alstom se refere a mim pessoalmente. E eu vou lutar para manter essa reputação e essa imagem. Porque isso é de interesse dos nossos clientes e dos nossos funcionários. Digamos que a Justiça evidencie problemas quanto a assuntos antigos - a essa altura, eu não posso nem dizer que isso vai acontecer. Porque até agora nós não somos acusados de nada e estamos falando sobre meras hipóteses. Se isso acontecer, vamos assumir as nossas responsabilidades. A minha prioridade é de desenvolver as nossas atividades. O governo tem um projeto muito ambicioso de desenvolvimento da infra-estrutura do país. Nós temos intenção de participar disso no futuro, como já fizemos no passado. E estamos desenvolvendo fortemente a nossa base industrial e social no país. E vocês vão entender que para mim essa é a prioridade das prioridades.

    Para nós, nossa reputação é um bem muito precioso. E ela evidentemente foi afetada por esse tipo de campanha. Então, vamos fazer com que nossa imagem e reputação estejam alinhadas com os fatos e não com essas acusações. Ontem, reuni 400 funcionários e a tônica da minha mensagem para eles foi essa: a de que a nossa prioridade está na ação. A realidade recente mostra que o sucesso não está só no nosso passado, mas também no nosso futuro. E eu estou muito feliz com isso.

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